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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2009

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven


A SEXTA


Um homem que não conheça os campos, que não tenha sentido a terra, as montanhas e as grutas, não pode interpretar a Sexta Sinfonia de Beethoven: cito mal e de memória, mas era o que dizia o grande maestro Bruno Walter numa entrevista. O seu programa é um pouco romântico ao rigor da letra, mas compreende-se. Talvez por isso o meu sobrinho Rodrigo, ao ver pelas enésimas vezes, aos três-quatro anos, a Fantasia de Walt Disney, sabia quase toda a sinfonia de cor (o cenário mitológico grego, com Baco e centauros, também ajudava: parecia uma música muito essencial, uma banda sonora da invenção do mundo).
É a Sinfonia de Beethoven que menos ouvi (é verdade, ouço mais a Quarta, de que quase ninguém gosta), e à qual aderi tarde e sobretudo por causa do Rodrigo: já diz o livro dos salmos, "da boca das crianças e dos meninos de peito sai a verdade".

Mas devo dizer que comecei a ouvir sobretudo uma versão diferente, estranha: a versão de Li…

O NOME DAS COISAS QUE SE AMAM E NÃO SE TÊM MAIS

Aigues Mortes, finais de Janeiro: uma enorme fortaleza no Mediterrâneo, como se São Luís de França quisesse guardar todo um país antes de o deixar para ir para Jerusalém. Como se quisesse guardar uma vida passada, quietamente inexpugnável.

Gostaria de o fazer com as minhas próprias recordações: guardá-las, como se faz às coisas que se amaram e não se têm mais: os brinquedos de criança, o valor das próprias recordações, o peso certo de uma amizade perdida, ou a emoção perante alguma coisa que hoje me parece mais passado que o passado. Guardar a própria existência física das coisas como coisas físicas na alma.

Porque nos perdemos de nós, tantas vezes, e o passado é a única coisa que conhecemos do nosso rosto.

Imagino este homem, meio santo e meio homem medieval, meio terra e meio imenso, a partir para uma Jerusalém onde não queria encontrar a vingança nem o sangue, mas o rosto real de alguma coisa muito interior e sua que perdera. Ao imaginá-lo, ouço o vento a entrar pela janela de casa da…

literatura, tudo o que não é evidente

A pedido de várias famílias, segue o texto que acabei de ler nas Correntes de Escritas, esse mar de encontros, com um abraço à Manuela e a toda a equipa.

evidente: o que pode ser visto, o que é visível.
muitas vezes penso que a literatura é como um grande vidro sobre todas as coisas do mundo visível e invisível: quase transparente, quase. podemo-nos aproximar, podemos ver, podemos sentir: uma espécie de tacto. uma espera de presa e atacante, em que raras, mas absolutas vezes, o vidro se parte e passamos para o outro lado do real.uma imagem navega pela minha infância. era no tempo em que a vida era um dia sucessivo, imenso e longo, à procura da alegria seguinte (as crianças trazem uma dor imensa nas mãos: porque tocam nos objectos possíveis e é como se o peso de bruma das coisas lhes fosse evidente; apesar disso prosseguem, como poços da luz que são, à procura do próximo território real do sonho). era nesse tempo em que o calendário era mais alguma coisa inesperada e manhã. lembro-me de …

autobiografia sonegada à insónia #3

os olhos do mar



na infância inteira sempre senti os olhos do mar pesando-me os gestos. terríveis quando a noite escura abraçava a terra e aquele rugido, como o chicote do vento, era para mim as mãos do terror.
era no tempo em que a vida era um dia sucessivo, imenso e longo, à procura da alegria seguinte. era nesse tempo em que o dia seguinte era sempre maior do que o anterior, nessa invenção do futuro porque é onde apenas uma criança consegue andar. num dia nesse tempo, nesse tempo de um dia só, nas margens do mar, estava diante do mar, a fazer os castelos dos sete anos. o mar tinha chorado muito, pensava eu, porque um tapete de limos jardinava o meu castelo. abria uma cova na areia onde havia pedras partidas, muitas, e até vidros de garrafa que se tornaram pedras do mar (um mistério, para mim, do que o mar podia fazer as coisas: tornar-me-ia eu, se morresse e fosse levado pelo mar, numa coisa tão transparentemente tornada como aquela pedra?). e por baixo daquela pedra, que era quase …

Três preciosidades do nosso Governo, três

Esta semana fomos brindados por três preciosidades do nosso Governo. Sim, daquele mesmo Governo onde por causa do detrás de uma cortina em pleno vôo, o Primeiro-Ministro tomou a decisão planetária de deixar de fumar; em que, como agência de comunicação controladíssima, tudo era pesado a pente fino. Pois, tudo isso está lentamente a desaparecer, em desagregação estrepitosa, como elefante em loja de cristais. Cá seguem as referidas, sinais dos tempos e sobretudo de uma dinâmica de equipa e de objectivos que se revela muito mal construída nos pressupostos. 1 A Ministra que não sabe falar Anda a Senhora Ministra a cortar em professores e a cortar nos professores e não sabia em debate no Parlamento a diferença entre «gostaria» e «gostava». E não sabia que, no contexto em que usou - expressão de desejo em contexto de cortesia - essas duas formas equivalem-se? E que, já agora, uma forma se chama Condicional e a outra Imperfeito? Fazem-lhe falta umas aulas de Português, senhora Ministra. Duvido …