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O ACORDO ORTOGRÁFICO

Muita gente me perguntou, pensei vezes e vezes em colocar um post sobre o assunto, e voltei sempre atrás. Mas hoje, num encontro de lusitanistas onde estive, em Clermont-Ferrand, a questão tornou-se clara.
Tudo na forma como o acordo ortográfico foi decidido e ratificado faz confusão a qualquer democrata, e ainda mais, alguém que tenha um mínimo de conhecimento teórico sobre a língua (no meu caso, realmente mínimo). Nenhuma língua se muda por decreto. Nenhuma questão de secretaria - ou tesouraria, como é também o caso - harmoniza as diferenças entre o Português Europeu e as suas variantes Africanas e do Brasil. Porque essas diferenças são parte da riqueza. Mas também ninguém imagina o Canadá a fazer acordos ortográficos com França, nem a Inglaterra a correr a assinar protocolos linguísticos com os Estados Unidos. Claro que a forma colonial destes países teve na língua um factor de colonização (uma língua com uma Academia, em cada país, para a regular à partida), e não como a nossa, que foi uma colonização muito distante destas.

Mas na verdade os Portugueses são à volta de 5% dos falantes da língua em todo o mundo. Que legitimidade temos de nos sentarmos na obrigação de gerir uma norma e de a impor? Aqui tocamos na ferida, que é bem outra e que não tem nada a ver com o Acordo Ortográfico. É que o que custa no Acordo é a compreensão traumática do fim do império (assim, com minúsculas mesmo). E o início do fim de um lusocentrismo da língua. Porque é que não percebemos como país que a colonização tem dois lados, e que se trouxemos uma cultura (e explorámos e matámos) outros povos, agora somos um país que deve receber e misturar-se e reinventar-se a partir dos contributos das culturas lusófonas. É essa a nossa natureza e é essa a nossa riqueza. Um investigador sul-africano disse-me um dia:
- Veja as cidades coloniais dos ingleses: prédios baixinhos, poucos, funcionais: o dinheiro ia todo para Inglaterra. Veja as cidades coloniais dos franceses: prédios baixos, funcionais: o dinheiro ia todo para Inglaterra. Dos holandeses nem falar. E agora veja a dos Portugueses: catedrais, palácios, prédios altos e bonitos. Boa parte do dinheiro ficava lá.

Pode-se concordar ou não, mas uma coisa é certa. O que está em discussão no acordo é perceber que o centro da nossa língua não é Coimbra ou Lisboa, não é Portugal, mas é o Oceano Atlântico, é o Rio de Janeiro, e Luanda, e São Paulo e Belém do Pará, e Maputo e Cabo Verde. É perceber, para alguns doentes do fim do império, que o nosso centro linguístico é o Atlântico e o político é Bruxelas. Que estamos em termos de expansão e identidade nacional exactamente como antes da tomada de Ceuta. E que isso não é forçosamente negativo, mas que nos urge a discutir e a pensarmos com todos os nomes. Que somos um país que tem de se reinventar.

Comentários

Está bem. Mas primeiro somos um país que tem de se aceitar. Como é. E gostar de si mesmo.
blog do leivão disse…
Gostei muitissimo de seu blog;é um dos mais originais que tenho lido.Parabéns.É muito verdadeiro o que disse da "língua atlântica".
Nós brasileiros às vezes nos sentimos um pouco isolados aqui.Mas é certo que "minha língua(também) é minha pátria.Na proxima vez deixo o endereço do meu blog.Esse comentário é só para dizer o quanto gostei do seu blog.Um abraço.james
STU disse…
Pois, pois. Esta é uma conversa muito complexa...!
apcosta disse…
Excelente post! Continua a dar-nos o prazer de te lermos de forma tão sensata e inteligente.

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