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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven
A Quinta

Os acordes mais famosos do mundo não são tudo: o que vem a seguir, este jogo de tensões e o seu desencadeamento é qualquer coisa do destino do mundo que acontece. Como uma história que soubéssemos o fim, mas precisássemos de ouvir porque o final podia ser diferente.
Grandes versões têm a capacidade de fazer isto e de me deixar sem respiração; sem poder fazer mais nada que acompanhar o processo interior deste ser em movimento, alma, pessoa ou ideia.
Esta é a banda sonora de uma ideia: como se pudéssemos encostar o ouvido ao coração do tempo.

Nesta música que abria as transmissões da rádio livre na Segunda Guerra Mundial; nesta música onde no Adagio a respiração de tantos sonhos de glória cumpridos parece guardar-se, reservatório de almas; no brilho do último andamento, rasgão de liberdade interior, não há ninguém que não perceba que ao ouvir Beethoven se conhece muito da alma do mundo. Cada vez tenho menos dúvidas disso: alguém que se entregue às Sinfonias de Beethoven, e a este centro em particular, e se dê, biografia e vida, ao que ouve, perceberá mais do mundo que muitos dias somados.

A versão recente mais entusiasmante é a do grupo dos instrumentos originais: Norrington (EMI, mas a integral vende-se na Virgin numa caixa simpática ao preço de um pequeno luxo), que consegue manter tensões inesperadas com o som diferente dos instrumentos originais: a velocidade da interpretação também é interessante, mas falta qualquer coisa ao drama que consegue criar. No mesmo campo, Gardiner é das maiores surpresas, num jogo de rapidez e contrastes que se avoluma na secura e no brilhantismo da orquestra. Para quem gosta de som DDD e instrumentos originais, nem há que ler mais.
Antes de passar para os bons velhos clássicos, onde me parece que o jogo se faz com todas as mãos (e todas as notas, neste caso) há que referir a interpretação de Gustavo Dudamel, novo Toscanini à frente da sua Orquestra Simon Bolivar da Venezuela. O som é espesso, a orquestra densa, mas a juventude e a sensação devastadora da música estar a ser habitada pela biografia dos músicos criam a tensão necessária, e uma narrativa cheia de surpresas.
E nos clássicos, cinco coisas a detalhar: se quer uma radiografia da obra, a gravação ao preço da chuva de Szell na Sony vai revelar a construção de Beethoven – mas secamente. A versão com ambos os pés é a de Schuricht (EMI), na integral: está lá tudo o que podemos querer ou pedir da Quinta de Beethoven. O grande Toscanini (Naxos, 1939) não deixará ninguém indiferente, mas com dores no corpo por tantas tensões rebentando. Mas se quer viver o drama ao vivo, com sons cataclísmicos, respirações longas, explosões: Furtwängler em Berlim, 1943 (DG), os músicos a tocar literalmente como se a sua vida disso dependesse, com a cidade a ser bombardeada. Um canto de liberdade e contra a opressão das ideologias, a música como língua livre. Aqui aprendi muito, mas é um território àparte.
Mas dou a palma à versão mais conciliatória e reveladora de Carlos Kleiber (DG): não há um recanto desta música que não surja a uma luz nova, ritmicamente implacável.

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