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a ferida luz do frio [autobiografia sonegada, I]

Era no tempo em que achava que o Inverno era música.
Procurava compreender como os seres se moviam, suspensos em gestos, como se um fio dourado os ligasse à terra do seu corpo. O frio ressaltava o universo perdido, aquele que os gestos escondiam, para que nem os seus olhos das mãos os pudessem ver.
Tinha muitos poucos anos, e faltava-me uma janela sobre o mundo que fosse maior que a minha alma. E então descia as escadas, noite escura e rangente nos degraus, e roubava do escritório do meu pai aquele disco de capa rasgada, a Terceira Sinfonia de Brahms por Leonard Bernstein. E ia para o outro canto da casa, procurando o som que eu ouvisse como era na minha alma, mas tão silencioso que fosse o único espaço entre o silêncio e o quase nenhum som. Então encostava a minha cabeça ao frio da janela, a gelar-me a cabeça, e pedia um mundo de dentro bem maior que o mundo.
Era aí que o Inverno era música.
O passado parecia-me tão demasiado que voltar para trás era como perder a alma na descida de árvores da escola para casa. Perdi-a tantas vezes, que descia a rua inteira e ia parar a outras que não sabia. Foi por isso que mais tarde nunca soube conduzir: era como se alma guiasse o carro, à procura de qualquer coisa, mais luz que pessoa, onde eu fosse aportar sabendo que chegaria, sem nunca ter chegado. Mas o passado demasiado, dizia, essa coisa de braços desconexos, e eu encostava a cabeça ao vidro como encostava a minha vida ao passado, e não percebia nada dele. Quem era eu?, a adolescência era uma espera vagarosa; o corpo parecia adiado, e o sentido de coisas tão pesadas para o meu corpo, para a estrutura fácil e igual dos meus dias magoava-me.
As manhãs não tinham qualquer tipo de luz. Era mesmo a noite, onde no silêncio absoluto a pergunta fazia mais sentido que atravessar qualquer rua ou qualquer mundo.
Procurava o que eu fui. Talvez antes, ou no sonho de alguém que tivesse querido sonhar comigo, desejar qualquer destino que eu fosse, querer habitar um pedaço só dos meus dias. Um momento só, inumerável mas inteiro, mas que fosse eu. Nada de vidas anteriores: eu mesmo, pensado. Justificado.
Talvez eu me encontrasse com o que eu seria. Isso sim: ver aparecer nas lâminas de lume da lareira o meu ser futuro: e aí, no Inverno por todos os lados, menos no futuro fogo, encontrar-me.

Comentários

etanol disse…
gostei muito.
Maria João
rff disse…
O Inverno ser música é uma observação perspicazmente poderosa....

Saúde

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