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Autobiografia sonegada à insónia #2

Porque é que as coisas são tão demoradas? São como férias no destino de uma criança. Quem me dera crescer tudo para atravessar rapidamente as coisas. Mas quando se é grande não se atravessa as coisas: perdemo-nos nelas, tocamo-las para um para a frente qualquer que nunca é o seu lugar, nunca.

Porque é que as coisas são tão demoradas? O mar da praia da Galé, o areal à volta, dias inteiros, densos, densos. Eu lia Heródoto nos treze anos ("O mundo tem medo do tempo, mas o tempo tem medo das Pirâmides") e sabia que a única saída para a minha vida era tornar-me um chato. Um chato com graça, mas um chato antigo, que saísse daqueles dias enormes de areais de expectativa, fogo lento para alguém que parecia ter crescido tudo aos doze anos mas que um corpo não acompanhava.


As coisas não parecem demoradas quando no espelho da autobiografia olhamos para trás e é cortantemente nítido: eu não cresci. Fui um animal longo e lento que saiu de uma toca de sombras para o volume absurdo do dia: de um salto, não progressivamente. Para chegar aos trinta anos e perceber que nunca cheguei aonde estou: que o lugar onde estou é múltiplo e imparável, que não há idades na idade nem areais senão nos olhos.


Esta areia dos olhos (serão os próprios olhos) demora tanto a deixar ver. Tenho hoje os meus doze anos completos, feitos aos trinta.

E invejo a areia.

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