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AS INCIDÊNCIAS PARTILHADAS

Uma coincidência não é um acaso, um fósforo aceso na noite para dois segundos de luz. Uma coincidência é um clarão: é incidirem dois pontos num mesmo destino, sendo que um deles é um ser humano e o outro o universo inteiro.
Passei este fim de semana por muitas coincidências. Sou um homem habituado a isso, já que todos os meus mortos, mesmo os que não conheci, procuram-me sempre para essa linguagem. Entranhadamente não a temo, estranhamente não a procuro. Mas reúne-me, em palavras difusas de um texto maior; confirmações de destinos mínimos, ou a segurança única de não estar sozinho, e de que a comunicação com o outro lado cada vez mais se alarga na minha vida.
Não sei se estou vivo se estou morto: se o que sinto e agarro daqui é apenas este pó de estrelas, este resto de nuvem, estas migalhas de sentido, de um texto ininterrupto e mar do outro lado. Sei que do outro lado o universo responde.

Uma coincidência é ver o nosso rosto reflectido desde muito longe, marcando-se nas linhas do futuro, gerando um clarão. Um jogo de sentido longo, da qual se ouvem apenas os símbolos, como uma música nascida de muito dentro e distante, mas cujo significado não conseguimos ainda perceber. Porque o significado somos nós.
Anel de Saturno ligando as horas todas, os segundos todos, e nós no mundo, livres, abraçados de espanto ao infinito.

Comentários

O universo responde sempre. Este e o outro lado são as duas faces da mesma divina moeda. As coincidências são instantes de perfeição apenas um pouco mais evidentes.
Ana Paula Mata disse…
Entrei nos aneis de saturno e o tempo parou. A coincidência é não mais querer deixar o infinito.

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