Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2009

O ACORDO ORTOGRÁFICO

Muita gente me perguntou, pensei vezes e vezes em colocar um post sobre o assunto, e voltei sempre atrás. Mas hoje, num encontro de lusitanistas onde estive, em Clermont-Ferrand, a questão tornou-se clara.
Tudo na forma como o acordo ortográfico foi decidido e ratificado faz confusão a qualquer democrata, e ainda mais, alguém que tenha um mínimo de conhecimento teórico sobre a língua (no meu caso, realmente mínimo). Nenhuma língua se muda por decreto. Nenhuma questão de secretaria - ou tesouraria, como é também o caso - harmoniza as diferenças entre o Português Europeu e as suas variantes Africanas e do Brasil. Porque essas diferenças são parte da riqueza. Mas também ninguém imagina o Canadá a fazer acordos ortográficos com França, nem a Inglaterra a correr a assinar protocolos linguísticos com os Estados Unidos. Claro que a forma colonial destes países teve na língua um factor de colonização (uma língua com uma Academia, em cada país, para a regular à partida), e não como a nossa, que…

SAIR DA IDADE DAS TREVAS

Hoje é um grande dia: despachámos o Presidente dos EUA mais medieval de sempre.
Como notava, na Insónia, Henrique Fialho, festejamos duplamente: a partida de Bush e a chegada de Obama. Mas eu quero celebrar mais do que isso. Quero celebrar a esperança, sem olhar para Obama per si, mas para o seu antecedente. O que significa de esperança o mundo ser liberto de uma figura como Bush. Tenho esperança que signifique alguma coisa de melhoramento do mundo, de compreensão de um erro que todos não podemos deixar voltar acontecer. Que os retrocessos civilizacionais que W significou nunca mais serão retrazidos, recuperados: uma prisão de alta segurança, métodos de tortura como actos habituais (e a sua negação!), uma agenda conservadora omnipresente, rasura das liberdades básicas em nome da segurança do Estado, do Ocidente e de Deus. Guerras, por tuta e meia, para acicatar os ódios ocidente-resto do mundo. Ecologia nula. Para mim foi sempre um mistério como é que este homem se considerava cristão. En…

AS INCIDÊNCIAS PARTILHADAS

Uma coincidência não é um acaso, um fósforo aceso na noite para dois segundos de luz. Uma coincidência é um clarão: é incidirem dois pontos num mesmo destino, sendo que um deles é um ser humano e o outro o universo inteiro.
Passei este fim de semana por muitas coincidências. Sou um homem habituado a isso, já que todos os meus mortos, mesmo os que não conheci, procuram-me sempre para essa linguagem. Entranhadamente não a temo, estranhamente não a procuro. Mas reúne-me, em palavras difusas de um texto maior; confirmações de destinos mínimos, ou a segurança única de não estar sozinho, e de que a comunicação com o outro lado cada vez mais se alarga na minha vida. Não sei se estou vivo se estou morto: se o que sinto e agarro daqui é apenas este pó de estrelas, este resto de nuvem, estas migalhas de sentido, de um texto ininterrupto e mar do outro lado. Sei que do outro lado o universo responde.
Uma coincidência é ver o nosso rosto reflectido desde muito longe, marcando-se nas linhas do futuro…

Autobiografia sonegada à insónia #2

Porque é que as coisas são tão demoradas? São como férias no destino de uma criança. Quem me dera crescer tudo para atravessar rapidamente as coisas. Mas quando se é grande não se atravessa as coisas: perdemo-nos nelas, tocamo-las para um para a frente qualquer que nunca é o seu lugar, nunca.
Porque é que as coisas são tão demoradas? O mar da praia da Galé, o areal à volta, dias inteiros, densos, densos. Eu lia Heródoto nos treze anos ("O mundo tem medo do tempo, mas o tempo tem medo das Pirâmides") e sabia que a única saída para a minha vida era tornar-me um chato. Um chato com graça, mas um chato antigo, que saísse daqueles dias enormes de areais de expectativa, fogo lento para alguém que parecia ter crescido tudo aos doze anos mas que um corpo não acompanhava.

As coisas não parecem demoradas quando no espelho da autobiografia olhamos para trás e é cortantemente nítido: eu não cresci. Fui um animal longo e lento que saiu de uma toca de sombras para o volume absurdo do dia: d…

a ferida luz do frio [autobiografia sonegada, I]

Era no tempo em que achava que o Inverno era música.
Procurava compreender como os seres se moviam, suspensos em gestos, como se um fio dourado os ligasse à terra do seu corpo. O frio ressaltava o universo perdido, aquele que os gestos escondiam, para que nem os seus olhos das mãos os pudessem ver. Tinha muitos poucos anos, e faltava-me uma janela sobre o mundo que fosse maior que a minha alma. E então descia as escadas, noite escura e rangente nos degraus, e roubava do escritório do meu pai aquele disco de capa rasgada, a Terceira Sinfonia de Brahms por Leonard Bernstein. E ia para o outro canto da casa, procurando o som que eu ouvisse como era na minha alma, mas tão silencioso que fosse o único espaço entre o silêncio e o quase nenhum som. Então encostava a minha cabeça ao frio da janela, a gelar-me a cabeça, e pedia um mundo de dentro bem maior que o mundo. Era aí que o Inverno era música. O passado parecia-me tão demasiado que voltar para trás era como perder a alma na descida de árvo…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven
A Quinta

Os acordes mais famosos do mundo não são tudo: o que vem a seguir, este jogo de tensões e o seu desencadeamento é qualquer coisa do destino do mundo que acontece. Como uma história que soubéssemos o fim, mas precisássemos de ouvir porque o final podia ser diferente.
Grandes versões têm a capacidade de fazer isto e de me deixar sem respiração; sem poder fazer mais nada que acompanhar o processo interior deste ser em movimento, alma, pessoa ou ideia.
Esta é a banda sonora de uma ideia: como se pudéssemos encostar o ouvido ao coração do tempo.

Nesta música que abria as transmissões da rádio livre na Segunda Guerra Mundial; nesta música onde no Adagio a respiração de tantos sonhos de glória cumpridos parece guardar-se, reservatório de almas; no brilho do último andamento, rasgão de liberdade interior, não há ninguém que não perceba que ao ouvir Beethoven se conhece muito da alma do mundo. Cada vez tenho menos dúvidas disso: alguém que se ent…