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Mensagens

A mostrar mensagens de 2009

O futuro é o trabalho do presente

Acaba o ano, sucessão de folhas mortas, caminho de luzes baixas, com futuros inesperados. O futuro é o trabalho do presente. Alguém tem de cuidar do futuro, ou o passado morre.
O fim do ano deixa-me sempre nesta espécie de corredor, a Terceira Sinfonia de Sibelius, o fim tocado pelo princípio.
Por isso leio, cada ano no fim, este poema das Odes de Rumi (Livro de Mesnavi), poeta persa do século XIII, de cultura sufi. Cá segue uma tradução pessoal, com falhas, mas saboreada, com votos de um ano novo.

Somos como a flauta, e a música em nós é tua; somos como a montanha e o eco em nós é teu. Somos como as peças do xadrez envolvidas em vitória e derrota: a nossa vitória e derrota é tua, Ó tu, de saborosas qualidades;

Quem somos nós, ó tu, alma das nossas almas, que persistimos em ser longe de ti? Nós e as nossas vidas somos verdadeiramente não vidas; mas tu, ser absoluto, revelas o perecível.
Todos nós somos leões, mas leões numa bandeira: pelo vento que eles impelem para diante momento a momento. A sua…

A Igreja Católica e o casamento gay, II

Volto a responder a José Miguel, que teve a simpatia de comentar o meu post anterior e de partilhar comigo e connosco a sua opinião. É precisamente este tipo de debate que faz falta no interior da Igreja e no nosso próprio país. Respondo pessoalmente, pedindo licença aos leitores do blogue por mais uma carta pública.
A sua resposta incide em três pontos: Verdade, Identidade e Igualdade. Refere que temos noções muito diferentes. Eu penso que é claríssimo que têm a mesma raiz mas – mais do que concepções – têm resultados diferentes. Sabemos o resultado de algumas dessas concepções. Acredito que o processo dos seres humanos é para o crescimento, a liberdade maior, para o «crescei e multiplicai-vos» que o Génesis metaforicamente aponta como destino. A libertação de seres possuídos, demoníacos, no Evangelho é naturalmente a representação de problemas psíquicos, mas tem também um significado metafórico: representa igualmente seres tolhidos na sua vontade e pensamento. É porque Cristo consid…

comentário a um comentário ao post anterior

Faço este post em resposta a um comentário aqui colocado ao post anterior, "A Igreja Católica e o casamento gay, I". O "II" seria para me deter um pouco mais precisamente no significado da expressão "casamento gay", mas pelos vistos não tive tempo. As reacções vieram cedo demais. Agradeço todas. E por isso mesmo aqui segue em forma de resposta em carta aberta, a todas mas em particular a José Miguel que teve a delicadeza de ler a minha opinião e responder, o que desde já agradeço.
Um dos pontos da sua resposta dizia, e cito: «A união homem/mulher é anterior ao cristianismo: está presente na ordem natural do ser humano, onde identidade feminina e masculina são diferentes e convocadas uma para a outra. Na sua união resplandecem na sua identidade e complementaridade.»
Sublinho as palavras «ordem natural». O meu texto não incidia directamente sobre o casamento gay, nem mais precisamente na minha opinião sobre até se concordaria com a expressão, mas apenas com o…

OS MELHORES CDS DE 2009 OU PRESENTES DE NATAL

Alguns simpáticos leitores do blogue mandaram-me mensagens perguntando quais foram os discos de música clássica de 2009 que mais gostei; e que poderiam ser bons presentes para oferecer. Achei a proposta fascinosa para quem é crítico nenhum de música clássica, mas apenas um amante com uma inflamação prolongada.
Cá seguem as propostas, sublinhadas apenas pelo gosto.

Haydn: Quartetos para cordas Op. 20 nº 5, op. 33 «O Pássaro», op. 76 nº5 Quarteto Jerusalem Harmonia Mundi

Perfeição de som, perfeição de entoação, perfeição entre o respeito da letra e a leitura lírica. Estes quartetos assim tocados cantam porque é que Haydn é o pai do Quarteto. O «Pássaro» levanta voo, canta, e fala de manhãs impossíveis de morrer mesmo que o corpo deixe o corpo.
Música das manhãs de Sábado quando a luz do possível reveste tudo de infinito.


Vivaldi: Concertos para dois violinos Guiliano Carmignola, Viktoria Mullova Venice Baroque Orchestra, Andrea Marcon Deutsche Grammophon

O mundo é possível depois deste disco: a v…

A Igreja Católica e o casamento gay, I

Fui informado por vários amigos em diferentes zonas do país de um acontecimento ominoso: à saída de várias missas estão pessoas, católicos, a recolher assinaturas contra o casamento homossexual. Pior que isso, muitas vezes os párocos em plena missa avisam para a sua presença e invectivam os presentes a assinar essas folhas.
Sou profundamente católico. E por isso mesmo, este acontecimento - esta sequência combinada de acontecimentos, esta campanha, que só pode estar a ser orquestrada com a anuência de alguns movimentos religiosos e figuras importantes da hierarquia católica - enche-me da mais rigorosa indignação.
A Igreja Católica foi desde a queda do Império Romano dominada por uma facção que a procurou controlar, suprimindo todas as outras correntes de pensamento; uma facção ortodoxamente dirigista nos costumes, cega no diálogo interreligioso, violenta na supressão de outras correntes. Serviu-se sempre da sua proximidade com o dinheiro e de uma máscara de uma certa perfeição de rigor d…

333 e Teixeira-Gomes

Aqui cito excerto de um texto que li na Biblioteca Manuel Teixeira-Gomes de Portimão, numa sessão sobre 333, em que tive ocasião de agradecer a marca profunda que o escritor algarvio gravou em mim - neste ano em que começamos a celebrar os 150 anos do seu nascimento.

os livros são casas. são casas no silêncio. e como todas as casas, têm de existir sobre uma terra que os sustente. se há uma terra para a poesia que escrevi, é o Algarve. devo começar por dizer que vou fazer um itinerário de afectos, um percurso interior com marcas, curvas e contracurvas. mas que ainda antes de começar quero agradecer a oportunidade de estar aqui convosco, e esta, de fazer este percurso – que como todas as construções, só faz sentido se fôr partilhada, visitada.
foi neste Algarve que os meus pais se conheceram, foi neste Algarve que fui gerado, foi neste Algarve, que ainda conheci rural e menos urbanístico, em que morri pela primeira vez. eu devia ter menos de dois anos quando, junto dos meus irmãos e dos m…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Duplo Concerto

esta é a história do amor de um homem.
de como começa a formar-se a partir de um fantasma; como consegue reconhecer-se o seu peso de impossível a formar os seus ossos futuros. as junturas do amor, sempre feitas de eternidades cortadas.
podes subir, de todos os abismos: podes subir. música que vens do mais longe de mim mesmo, do ponto em que nunca fui, do corpo onde nunca serei. podes chegar, podes chegar. mas não podes passar. sou um violoncelo atirado das escarpas de jamais para rasgar o seu canto no último momento do tempo. eu canto uma janela, ferida de chuva por todos os lad
os. podes subir, acordes de um violino que vem de tão perto que podia ser eu.

12 de Novembro de 1997: esta música soa pela primeira vez na minha vida, e eu não posso ouvi-la porque sou eu. não a posso deixar prosseguir, passar, porque em cada acorde eu estou nu perante o universo inteiro. Brahms roubou-me cada segundo da respiração deste planeta: sou eu, há um momento vivo, morto ou ressuscitado em …

o temporal levou minha janela

Estive longe por causa das vindimas, mas aqui volto.
Dias atrás, uma ventada levou minha janela. Não era janela de casa, era de uma pequena casa no fim da propriedade, casa só de arrumações. Ali minha adolescência de livros e proibições cresceu por trepadeiras.
Vou lá pouco, hoje, a casa vai caindo. De vez em quando dou um jeito nela, mas a casa foi caindo porque a minha adolescência foi partindo. Sei que sente a falta de um rapaz que crescia nos seus muros para atingir o céu. Na virada do milénio, não estava eu na quinta, me disseram que quase caiu. Pois há dias, uma ventada grande levou minha janela. Era de madeira branca. Eu freqüentemente olhava por ela para ver se não vinha ninguém. Ela caiu: eu já não espero ver ninguém me procurando quando eu faço o caminho para o futuro.

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Schubert, só depois dos trinta

Discutia há dias com um amigo, melómano mas não tão chato como eu, que Schubert era uma doença que só aparecia depois dos trinta. Ele também concorda: tem a ver com a compreensão de ritmos interiores, disse-me.
Schubert morreu aos trinta e um. Isso é irrevogável e não sei se alguma vez o mundo recuperará inteiramente disso (cito Piotr Anderszewski sobre Mozart).
De facto sempre ouvi Schubert. Mas não saía da trindade habitual, a Sonata D. 960, de que já falámos aqui nos “Jardins para o fim dos tempos”, as duas últimas Sinfonias, o Quarteto “A Morte e a Donzela”. E o resto era música, excelente, mas não rasgava os ouvidos do coração.
E subitamente, os trinta anos, e com eles as sonatas para piano por Richter. Aqueles tempos lentíssimos, de respirações longas, que se prolongam por praias suspensas, congeladas. Uma dor minuciosamente analisada, minuciosamente alargada.
Esta música não encena, não teatraliza, não arde para fora. É preciso estar perdido dentro de…

A CARA EM FÉRIAS INTERIORES

Pois ficámos a saber que a Cara tinha sabido do caso TVI numa destas chamadas que só os supremos tribunais lêem [é tudo tão fascinoso hoje em dia que o que se escuta lê! Ó tempos virtuais em que as pitonisas vêm por escutas tribunais!]. Isto quando disse no Parlamento que nunca tinha sabido do referido caso, da compra da TVI pela PT. Agora soube "através de amigos". E eu pergunto a cada um dos cinco leitores deste blogue: se soubessem de um caso grave que punha em causa o equilíbrio de forças deste país, de um caso de concentração estratégica que punha em causa o são equilíbrio de poderes, se soubessem informalmente de uma coisa, como responsáveis máximos de um Governo, não pediriam informações? Não impediriam tal coisa? Quanto mais não fosse, para evitar futuras acusações contra si mesmo? Não: a Cara só governa em férias. Ficámos a saber que há uma separação entre o líder ao telefone e o líder no Parlamento. Que umas coisas preocupam a Cara oficialmente e que outras nem por i…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Análise do Fogo: Tchaikovsky: Concerto para Piano e Orquestra Nº 1

tudo existe desde sempre: convive connosco, mas só é verdadeiramente para nós quando nos acontece. perco noites inteiras a pensar no magma inumerável de coisas que conheço mas que ainda não conheço, porque só vão ser para mim quando me acontecerem. tudo ocupa a sua órbita até desorbitar em nós.
assim com este concerto, que na minha primeira fase de amor à música achava longo, pesado, cheio de interrupções pensativas, quando eu queria da música exclamações, irrupções, a subjugação de uma paixão.
até ao dia de Outubro de 2004 em que me aconteceu a versão de Vladimir Horowitz com o Arturo Toscanini. Em 1943, num evento para recolha de fundos para o esforço da segunda guerra mundial, pianista e o seu sogro maestro gravaram o caminho mais próximo entre esta música e o fogo.

não é fácil chegar aos lugares interiores como se faz com os físicos: como chegar a uma pedra, a um quarto, a uma igreja, a uma praia, e dizer, «foi aqui»,…

crónicas escritas em sede #4

o unicórnio

era uma noite longa, em que os dias também eram noite, porque tudo era escuro e misterioso, e se atravessava sem saber para onde. sonha-se muito nestas travessias. talvez porque precisemos de ir buscar ao subconsciente água e chão. num desses sonhos, eu atravessava uma paisagem clara, amarela, quente. havia um calor que se sentia na pele e que parecia subir. a cada passo eu sentia-me mais e mais protegido, por alguma coisa que estava no alto mas bem perto. as cores claras da paisagem, que me pareceram antes uma construção, eram afinal patas, enormes e redondas, e por cima não um tecto mas o corpo de um cavalo, enorme e imóvel, sábio de estátua. avancei por debaixo desta construção real, carne de sonho. percebi-lhe os contornos gigantescos, mas a cada golpe de realidade o cavalo me parecia mais próximo e reconfortante: cada parte dele construía-me mais seguro na alma. quando lhe procuro o rosto, redondo e largo como nas estátuas, não lhe vejo os olhos, mas ele sabe que eu estou…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS: MILHAUD

MILHAUD


Um disco numa tarde de 1997. Eu reinventava-me, deixava uma vida para nascer outra. Aquela sensação de o espaço se inventar a cada gesto quando tudo recomeça. E aquele disco: Milhaud, da série «Composers in Person». Uma mistura de jazz com ritmos brasileiros, os ritmos medievais e regionais provençais numa orquestra modernista de jazz band. A invenção permanente.

Darius Milhaud nasceu em 1892 em Marselha. Foi para o Brasil como secretário de Paul Claudel, depois Suíça, depois Estados Unidos em prelúdio e fuga do nazismo. É um dos segredos mais bem guardados da música do século XX. Compôs infinitamente, porque dizia querer ter sempre uma coisa nova para cada dia.
Não ouço outra coisa: há um manancial de sinfonias, concertos para piano, música para teatro, quartetos de cordas. Mas ninguém fica indiferente a Le Boeuf sur le Toit, grande divertimento politonal com Brasil e saxofones a levantarem a orquestra. Há uma excelente versão com o compositor a dirigir (na dita colecção da EMI…

crónicas escritas em sede #3

a vida chega sem avisar

mais frequentemente do que a morte. sinto mesmo com o entendimento que as chegadas da vida são a educação para a morte. o cenário de esperar: o ruído lá fora, da chegada, e a janela de esperar ocupa o espaço do coração. mas isso é o habitual, a rotina das chegadas. eu falo de quando a vida chega imprevista e em chamas, um incêndio conjuntivo. aí o ruído lá fora, a janela, não é isso nós ou eu - nós ou eu somos a chegada. as grandes fases da vida são feitas deste estilhaço. de quando a infância acaba porque acabou o esperar. da adolescência quando não esperar se torna fazer. da adultez quando a vida chegar e desfazer é a sua própria essência. pode arder um cigarro, podem arder as memórias: o coração é a única coisa inteira do corpo, porque se parte no invisível.

crónicas escritas em sede #2

O CÉU DO CHÃO

desde pequeno que achava que havia um céu para cada chão. como nas casas, quando o tecto é sempre o tecto para uma sala, e só é tecto para essa sala. o tecto ideal para o mar é o céu azul, porque até se o mar está escuro, o céu também se escurece. é uma relação perfeita em que um é os olhos do outro. os mestres espirituais sublinham sempre que o nosso estado de espírito interior é o mais perfeito estado de espírito que temos - é nele que temos de encontrar a nossa perfeição. é o tecto que tem de desenhar o nosso chão, onde temos de pôr os pés do real, onde temos de inventar um corpo suficiente para os dias. mas quando não conheço nem o céu nem o chão; quando, como se num sonho, tudo se reinventa à velocidade do coração: que chão, que tecto, que música de corpo sobreviver?

o coração com as raízes iluminadas

Ontem passei o dia na Quinta arrancando erva. Há pessoas que arrumam armários, outros que vão ao cinema, quando querem arrumar sua cabeça. Eu arranco ervas na quinta. Quando aprendi Português, gostavava muito do poema de Alvaro de Campos que era: «Fui como ervas e não me arrancaram.» O meu coração está quase sendo arrancado. Vocês não sentiram isso quando uma pessoa se apaixona? Só que quando as raízes sairem, até elas estão iluminadas. O amor chegou mais fundo. Mesmo quando uma árvore está morrendo, a linfa quer chegar a toda a planta.

NÃO HÁ CENÁRIOS, HÁ OBRIGAÇÕES

No rescaldo das eleições, por mais tinta que corra, uma verdade é absoluta: o povo é sábio. Eu gostaria que o PS perdesse, ou tivesse ao menos uma maioria mais curta, mas o cenário é melhor do que parece à primeira vista. Ora vejamos: 1. É notório que o país quis que o PS continuasse a governar. Sete por cento de diferença é uma maioria assumida. Mas que quer que governe sem maioria absoluta e sendo capaz de dialogar. E vão logo dar esse presente ao primeiro-ministro menos dialogante desde João Franco. O PS embandeirou em arco e ainda não percebeu o que se passou. O primeiro-ministro sim: aquela cara era metade da cara das europeias, com metade da cara de satisfação. Agora teremos os dois rostos. E daqui é claro: ou o PS entende que está na sua mão saber gerar consensos, ou então pode bem esperar-lhe, daqui a dois anos, em novas eleições, uma maioria muito mais curta e consensos bem mais autofágicos. 2. É óbvio que a esquerda ganhou em toda a linha. E que o país quer ser governado à esq…

crónicas escritas em sede #1

O escultor de água

compreendo hoje que quem esculpe a pedra o fez primeiro em água. já o tinha visto em Rodin, todas aquelas fadas líquidas, e corpos misturados que tiram água um do outro numa sede alta, ardente, de pedra em incêndio. vejo-o com a nitidez dos materiais, da pedra que precisa de conter e secar em si mesma a água, para guardar o que corre no que é imóvel.

assim também o amor procura o deserto antes de se dar, quer correr imóvel dentro do ser que deseja, para criar o amor do outro.

havia na minha infância uma montanha enorme, ao pé de minha casa. subia-a como se fosse o Kilimanjaro, e chegava lá acima esperando ver o topo daquele pequeno mundo. era a subida das pedras que afinal importava, porque a altura das coisas só se vê de dentro.
hoje passo pela montanha, um monte ridículo de pedras, mas agradeço-lhe a aprendizagem.

assim também o amor, de que importa só subir a sede.

AS MINHAS PREVISÕES

Suspeito que as sondagens andam enganadas. Aqui vai a minha tese:

1. "Asfixia". Concorde-se ou não com a asfixia, creio que muitas pessoas dizem votar no PS, com as empresas de sondagens, por receio. Daí podemos tirar 5 a 6%, os mesmos que fazem a diferença com o resultado previsto nas europeias, e que perdeu. Acredito também que as pessoas estão cansadas do PS mas muito do cansaço não é ainda absoluto, e que muito deste voto é "não há melhor, deixa ver". Penso também que no dia das eleições, alguns dos que dizem votar PS ficarão em casa; foi sempre o partido menos beneficiado com a abstenção, reforçando-se com o facto de ser o partido no poder.
2. Conservadorismos. Votar PSD, com a postura conservadora de Ferreira Leite, pode ser para algumas pessoas dar de si próprios essa imagem. Mas os portugueses são mais conservadores do que parece - não querem é parecê-lo. Donde que acredito que muitos não terão dito que votam PSD para não quererem parecer conservadores. 2 a 3…

CRÓNICA DE UM PAÍS PARTIDO

Eu vivo num dos países mais antigos da Europa. Um país que teve de conquistar o seu espaço geográfico durante duzentos anos, e procurou outros pelo mar durante outras centenas de anos. Que viveu numa ditadura durante dezenas de anos, e fez progressos acelerados durante trinta. Um país com uma das maiores literaturas do mundo, e uma das paisagens mais ricas e contrastantes.
Mas eu vivo num dos países mais perdidos do mundo. Um país que tem um Presidente e um Governo que se suspeitam, que tem um parlamento que não funciona - e por isso precisa das maiorias absolutas como uma negação que o legitima; que tem Governos que vivem contra a cultura , e chegam antes das eleições a pedir desculpa, não sabendo que é ao próprio povo a quem essa ausência de trabalho cultural faz falta a cada segundo. Um país que tem o complexo de se achar no primeiro mundo, mas vive com as regras do terceiro. Um país onde a democracia é barulho, e um obstáculo para os poderosos chegarem a monopólios. Um país que não…

O PAÍS AO CONTRÁRIO

Estou de luto: o meu país está doido.

Alguma vez se concebeu a polémica que atravessa o país hoje? O que é isto, em qualquer país democrático?
Não percebo como é possível algum Governo, em alguma circunstância, mandar espiar a Presidência do país. Mais, como notava agora mesmo, na SIC-Notícias, Alfredo Barroso, como se concebe só passados 14 meses (os factos são de 23 de Abril de 2008), em plena campanha eleitoral, se discutir o assunto. Para já, é um erro do Presidente, notório: se as acusações podem ser comprovadas, deveria tê-las colocado ao Primeiro-Ministro, ao Parlamento, ao país, muito mais cedo. Não tão tarde, e em campanha, e sobretudo, por interposta pessoa. Se o Presidente não teve nada a ver com a divulgação deste caso, hoje e agora, então deveria igualmente agir e com provas afirmar que o que se passa é um equívoco. Se é independente, deve zelar pela saúde mental do país - que neste momento está psicótico. Como também não concebo, na SIC Notícias, que acabo de ver, uma leitu…

NOTAS SOBRE AS ELEIÇÕES

O país vai a votos, e não se devia falar de outra coisa. Mas ainda há o sol, a gripe A, e milhares de outras coisas tão mais interessantes que isso. Não deixo de poder partilhar algumas notas sobre esta pré ou quase campanha que tem sido invulgarmente esclarecedora. 1. os debates Não me lembro de nunca ter havido destes debates, tão igualitários entre líderes. De facto, para esclarecer ideias, não poderia haver melhor. E corrigem a imagem de trauliteirice que o Parlamento tem dado. Nem em Itália com o sr Berlusconi se ouvem coisas como - só de repescar este ano - se ouviram. Nos debates (como no excelente entre Portas e Jerónimo, ou no de hoje, entre Sócrates e Louçã) ficam tão claras as diferenças. Mostra uma vontade de esclarecer, trabalho sério dos candidatos, e falta de temor em ver todos os ângulos. A senhora portou-se bem, embora muitas palavras caiam ao lado do que quer dizer, mas a atitude mostra mais do que a cabeça de cartaz que é para o partido - aliás, péssima. Manuela Ferrei…

O mar

Hoje eu fui a Bremen ver o mar.
O porto é grande, entre a neblina. Muitas grandes máquinas de ferro, que são como gigantes mortos ao pé do mar. Assustam-me desde que eu era menino. Talvez porque eu sempre fui um menino do campo. O mar me parece sempre um grande monstro ameaçador capaz de tudo. O mar em Portugal, por exemplo, é como uma namorada: bela e terrível, apaixonante e perigoso. Você sente que quer mergulhar mas quando entra não sabe nunca se vai sair. Mas o mar em Bremen me pareceu mais escuro, mais distante. Não via o mar de Bremen há doze anos. Me parecia triste. Talvez o mar precise que a gente tenha medo dele para existir.

LISBOA É UMA VARANDA SOBRE TODOS OS CONTINENTES

Lisboa é uma varanda sobre todos os continentes, cortada por um dos rios mais literários e místicos do mundo, de Camões a Santa Teresa de Ávila, dos Cancioneiros a Pessoa. É um dos melhores sítios para ler, porque os textos parecem ser a sua água.
Foi diante do Tejo que sempre li, ou até mesmo que aprendi a ler, quando a minha avó me sentava na varanda diante do rio, e me dizia “para além do barco que vemos há o destino do barco, que não vemos, mas que é mais verdadeiro que ele”. E nos últimos anos, depois de terem destruído essa casa, comecei a ler na esplanada do centro cultural de Belém.
Outro local, onde leio por motivos de investigação, é a Biblioteca Nacional. Acredito que estes livros, dos manuscritos às edições mais recentes, criam uma floresta interior, onde ospulmões da alma podem respirar por inteiro. Há aqui uma espécie de energia, que não tem a ver com a sua natureza, mas com esta espécie de irmandade silenciosa que foi ser criador de literatura e pensamento em Portugal – e…

PERCEBER UM POETA

Ontem um amigo meu poeta me trouxe o seu livro. Estava ainda em papéis, antes de o enviar ao editor. Ele me disse: «Dario, você tem que ler e cortar o que não quiser». Eu lhe disse que eu cortar, só sei árvores, mas ele queria muito que eu lesse. É uma grande responsabilidade, ainda disse a ele, porque ficar assim responsável por cortar a cabeça aos versos, é terrível.
Concordo com o nosso amigo poeta aqui do blogue que os versos são os pulmões da alma. Ao pensar nisso fiquei ainda mais doente.
Antes de aceitar, perguntei-lhe se a cópia era para mim. Disse que sim.
Fui então a correr deixar o meu amigo na cidade. Herr Hans ainda não fechou a loja (só no fim de Agosto) e tirei um xerox de todo o livro. E ainda cheguei à Quinta antes do sol cair. Pus os versos presos nos ramos de uma árvore, cada página amarrada com um arame, para não cair. E deixei assim os poemas do meu amigo, cada um no seu ramo de árvore. A Natureza ia ajudar-me a eu ler.

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A música onde derrota o coração
Chopin: Nocturno No. 16, op. 55 Nº2
é um espelho, é água, é a derrota: como se nesta música eu pudesse perceber e ser ferido, levantar-me e cair, subir de pé à dor mais alta do meu coração.
é uma acústica da alma, como dizia Novalis. cada respiração, cada tema melódico, como fosse o que eu próprio cantei sem notas nem palavras, amando demasiado perto do coração para que ele próprio pudesse existir.

uma noite, há mais de dez anos, falando das nossas mágoas, o meu amigo Pedro, uma espécie de amigo da infância mas depois desta ter morrido, que sabe piano, também me contou que esta música era seu hino de glória às derrotas do coração. e explicou-me, de pautas na mão, o percurso das duas mãos ao piano quando se toca esta peça, o que uma sugere à outra, como entre o coração e o cérebro alguma coisa se comunica maior do que nós.
«somos como tendas de nómadas/ cegando à claridade»: assim dizia Natércia Freire, assim o repete esta música. como cair em cinco minutos…

MUDANÇAS

Herr Hans, onde todo o dia compro o jornal, decidiu fechar a loja.
- Estou cansado e o futuro foi-se embora.
Fiquei triste, mas mais triste por esta frase. O que será na vida de alguém quando o futuro vai embora? Nunca tive isso. Pude sempre olhar para o campo à minha frente e esperar coisas novas, árvores, flores, o pôr do sol, a chegada de alguém. Uma vez uma namoradinha que tive disse que eu era muito chato porque só pensava no hoje. E eu me lembro de lhe dizer: - Pois, porque assim espero melhor o amanhã. Herr Hans é novo, tem sessenta anos. Penso no que vai fazer nos vinte ou trinta anos que a vida tem à frente dele. - Isto de jornais cansa. É só tragédias e desgraças. E depois pensei que ele estava farto do mundo. Então decidi ir acabar o dia de ontem - quando isto se passou - no meio do pomar, e ver o sol desaparecer entre as árvores, para o esperar melhor amanhã.

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A música que dói porque lhe dei o meu corpo
Schubert: Sonata D. 960
era aquela terra de ninguém abraçante como um medo, e dupla: as noites da pré-adolescência, quando os pavores de criança são substituídos por outros, a recordação do dia anterior morde, e a dor de existir é a única coisa que constrói os dias. a tentar dormir entre todas estas coisas, e no andar de baixo, pelas noites longas de trabalho, o meu pai obvia obsessivamente esta música. tantas noites os meus medos me adormeceram nestas notas.

parecem vir de dentro: não conheço nenhuma outra melodia que pareça tão inteiramente nossa, construída por nós, uma ferida que o nosso coração cantou depois de destruir-se. avança, serena e secreta, e pára, como quando a nossa dor se torna consciente, sai de nós e nos olha, em desafio, antes de nos deixar com um beijo de ferro na memória.
e depois aquele primeiro tema regressa, canta como uma perda reencontrada; ecoa pela memória inteira, como se a chamasse para acordar, levanta-te de ti m…

Ladainha dos dias póstumos

os dias são interiores, os dias são interiores,
estou sempre a dizer-me: quando o dia é meu, quando perco o dia, os dias são interiores, os dias são interiores, quando percebo o sentido do que vou fazer, do que estou a fazer, do que estou prestes a fazer, do que fiz, do que não fiz, do que dolorosamente poderia ter feito, do que percebi que fiz e não me dei conta que fiz bem ou mal, ou igual, ou nada, que é o pior dos dias, os dias são interiores, os dias são interiores, quando uma palavra é o caminho do dia, um verso, ou quando isto tudo era mais verdade do que eu, e agora se perdeu, uma toccata de Bach por Glenn Gould (a 914!), um soneto de Antero, uma frase de Séneca, um verso de Alberto Pimenta, os dias são interiores, os dias são interiores, quando o futuro era um dia, abria-se, chegava-se, instalava-se dentro do dia e dizia-se, era neste dia mesmo que eu queria estar, era assim mesmo que devia ser, era meu, não foi criado por mim, mas serve-me para eu o criar, são isso os dias, coi…

PERDER UM MURO

Hoje me está doendo o pensamento.
No fundo do jardim, onde tem um muro que separa de minha vizinha, Frau Lotz, havia uma pedra bem enorme, onde quando eu era criança me sentava. Aprendi muita coisa sentando ali. Pensava se o mundo acabava num muro igual a esse, ou se o mundo eram muitos muros seguidos um depois do outro (disso eu não gostava, me parecia que as pessoas viviam fechadas umas contra as outras). Pois a chuvada que esteve fazendo aqui estes dias derrubou o muro. Foi como se eu tivesse perdido um braço. Afinal, eu aprendi a pensar vendo esse muro. Agora já não há nada que me separe do mundo. Pensava naquela história da poeta polaca Szymborska, que quando cortaram a árvore que ficava mesmo em frente da casa onde vivia com o marido, se sentiu nua no mundo.

UMA CARTA INÉDITA DE SOROR FLÂMULA

Para aqueles que leram 333, conhecerão a história. Para os que não leram: o livro reúne pedaços das cartas de uma freira imaginária, Soror Flâmula da Encarnaçam. Aqui publico uma carta integral, que não foi integrada no livro.


Décima-Primeira carta de Soror Flâmula


Muytos & numerozos saõ os destinos dos homens. O corpo repparte-se por estradas & abysmos, na alma e no coraçaõ; poucos saõ os que podem olhar o fim de frente e naõ perder-se nele. Por isso sabemos quando o coraçaõ pára de bater, e nunca quando inicia.

O coraçaõ naõ-no temos: inventamo-lo, como a Terra reverbera o Sol. Saõ os meus dias todos que vos criam: desde que fuy gerada, no ventre de minha mãy, uma pergunta de ágoa e de espanto, que os meus braços vos procuravam, dessedentada. Vos ereis sempre aquele que eu imaginava, porque Deos só existe porque temos fome & sede delle. Poes o amor de Deos só existe porque Elle tinha fome & sede do amor dos homens. Relógio d'angustias, corredor de bracços: o cosmos…