Avançar para o conteúdo principal

RETIRO DE ESCRITA


Passei três dias e meio em Serpa com alunos da Companhia do Eu, que dirijo há quatro anos. Estivémos na Casa de Serpa, graças à parceria que estabelecemos com os incríveis Sílvia e Miguel, donos e almas da casa. Estiveram o Jaime, a Ana Oliveira, a Ana Catarina, a Teresa Lopes, a Susana, a Patrícia e a Filipa.
O mais impressionante destes dias não foi a chuva, nem o frio, nem as refeições extraordinárias. Foi sentir que, entre oito pessoas tão diferentes, que tão pouca coisa unia, um espírito de procura e de pesquisa se tornou uma espécie de casa comum. E que a partilha é possível, com os projectos de livro ou de contos de cada um a serem de facto preocupação de todos, dividido por todos, acompanhado e gerido.
A sensação que tive é que as barreiras que nós próprios a nós próprios colocamos (bloqueios de escrita, representação de si próprio, medos, receios, fugas) caem quando somos imaginações juntas a perguntar-se; quando somos o caminho um dos outros. Todas as pessoas podem comunicar, vindas de raizes tão distantes, e tão diferentes entre si, a partir do resultado livre da sua imaginação. E isso é a igualdade.
E ver a igualdade acontecer perante os nossos olhos e durante três dias é uma coisa tão rara no mundo.

Comentários

Alexandra Lisboa disse…
Também quero, quero mais e mais estar no meio de todos vocês.Quero ser igual ou pelo menos ter a possibilidade de o sentir

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…