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O MEU SÃO PAULO

Estamos no Ano Paulino, em que supostamente se comemoram os 2000 anos de nascimento do santo. E eu não posso com o tipo.
Ele é uma espécie de “Pai dos Crentes”: enquanto a malta dos Doze apóstolos e das mulheres acreditaram porque viram, ele, que não conheceu Cristo, teve um “surto” na estrada de Damasco – e passou a crer. até aqui tudo bem: a estrada de Damasco inclui o mosaico sempre inacreditável de todos aqueles que passam a acreditar (e num Deus múltiplo, portanto pessoal) depois de uma crise, um clarão, de uma falta – são os mais frequentes e os mais felizes.
Mas depois nem todo aquele epistolário se aguenta, cheio de recomendações e proibições, ferozmente machista, misógino, homofóbico e ultramontano. Tudo certo, relativizo: Deus fala aos homens por profetas, livros-vivos, que trazem consigo muita areia própria, muito horizonte de expectativa dos destinatários da mensagem, muito ar do tempo: se eu fosse respeitar o que diz o Levítico, teria de apedrejar o meu pai que trabalha ao Sábado (e já agora ao Domingo, actualizando e piorando) desde que o conheço, a salvar doentes; ou o sistema bancário (e alguns grupos religiosos católicos com ele muito ligados) estariam em pecado mortal por emprestarem dinheiro a juros. Já sem falar no que aconteceria às minhas irmãs por saírem sem véu – punição ao pecado que implicaria coisas estranhas em campos e afins.
Está bem, S. Paulo, relativizo. Pensando nos excertos das Cartas que amo, que sei de cor, onde explode um clarão de superhumanidade, quase mágica na sua força teológica, na sua penetração (mágica no sentido em que Kafka afirmava: «designar a vida com o nome concreto»; dizendo a eternidade nas palavras). Mas, assim mesmo, não deixo de o ver da mesma forma: uma extraordinária consciência cósmica presa num corpo neo-cristão conservador.
S. Paulo: talvez a melhor maneira de fazer 2000 anos seja vir ter contigo. Nem pediria uma estrada de Damasco: bastava-me uma cerveja no Adamastor. A ver se eu te entendo: porque muitos milhões de crentes acham que eu perco com isso. e, em parte, eu também.

PS – Ao lado, a Conversão de S. Paulo, de Caravaggio.

Comentários

cbs disse…
"Nem pediria uma estrada de Damasco: bastava-me uma cerveja no Adamastor"

subescrevo.
belo!

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