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NO PONTO ONDE AS COISAS SE DESCAMINHAM

Não há coisa mais irritantemente burocrática do que o fim do ano. E porque é que convencionaram que o fim do ano era em Dezembro? Porque é que o fim do ano não é em Setembro, quando voltamos das férias; assim se uniria o descanso com o desejo de recomeçar, e descanso e desejo vão bem juntos, como nas voltas da cama. Não, tem de ser em Dezembro, e tem de ter vestidos pretos e saltos altos e passas e champagne e fogo de artificio na Madeira e toda uma parafernália pirosa, plástica, rimelenta, superficial-positiva, burguesa e com dores de barriga na alma.
A passagem de ano é tão irritante que até tem que ter a palavra francesa mais estúpida do dicionário gaulês: Réveillon. As palavras francesas são todas bonitas e saucy, mas esta, que vem de Reveiller, de levantar, de ressurgir, ficou plastificada como uma nossa senhora numa loja de chineses, e cheira a irritações nos dentes.
E depois todo aquele frenesim de contar os minutos, como se pudéssemos perder um barco qualquer que é contado na televisão com papalvos aos saltos, a emborcar champagne enquanto se pensa no LCD que se quer ganhar para o ano ou se o Benfica ganha o campeonato. Como se se não fizessemos tudo isso o fim de ano, essa entidade melíflua e raposeira, passasse por nós com um sorriso putinesco e nos dissesse: «ah, não contaste bem? então vou lixar-te o ano, anormal da matemática que nem sabes contar».
O fim do ano é a pior invenção humana depois dos bibelots e das sogras. O fim do ano é uma maldade que se deseja tanto a alguém que se reproduz todos os anos e ainda consegue ser pior. O fim do ano é uma conta social que se paga com juros e dores de cabeça nas memórias. O fim do ano é tão mau que até é o fim do ano.
Por mim, proponho já uma associação de pessoas que se juntem no dia 31 de Dezembro e façam tudo menos comemorar o novo ano. Que passem pela meia noite perfeitamente nas tintas para essa irrelevância. Pode ser que ele, o fim de ano ou o réveillon, ou tudo isso e os raios que partam o fim de ano e quem lá anda, comece lentamente a desaparecer e não seja mais do que um ponto negro na cara de Janus que desapareceu.

Comentários

Eu alinho na OPA (Odeio Passagem de Ano)!
No amor, tal como nas passagens de ano, o problema é sempre o mesmo: o "tem de ser". Se for o que é, não deve haver problema de maior.
Adriana Bebiano disse…
Não tem de ser, mas pode ser diferente - sem sorrisos de plástico, muita gente ou piroseira. E pode ser em Setembro, sim. desde que haja um momento ritual de (ilusão de) renascimento. E aquele dia em que eu prometo que é este ano que vou trabalhar e fumar menos (só para não cumprir).

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