Avançar para o conteúdo principal

Jardins para o fim dos tempos

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

A MAL-AMADA - A Quarta Sinfonia de Beethoven

É como a paixão que tivemos, depois do primeiro amor e antes das relações sérias: devemos-lhe muito, aprendemos muito (ou nem por isso), está a meio do nosso percurso como uma tabuleta ou um mapa, mas não a contamos entre os nossos grandes afectos de vida. Ou como o livro que se escreveu entre dois fogos, onde mais subimos dentro de nós mesmos do que produzimos alguma coisa de novo (o que eu costumo chamar os livros-oficina; todos os escritores têm um ou vários; há alguns, até, que nunca parecem ter saído disso). É a mesma coisa com a Quarta Sinfonia de Beethoven.
Entre a Eroica e a célebre Quinta; fechando portas que vinham directamente do classicismo, incorporando a fúria da ideia que traz tanto já de Romantismo. Por isso, é uma Sinfonia mal-amada. Há até o célebre mito de que Beethoven não funciona nas sinfonias pares, o que não é verdade (a Segunda e a Pastoral, e mesmo a Oitava, negam-no).
Devo dizer que nunca gostei muito do seu início que me parecia muito ligado à Primeira, nebulosa em formação, entre adagio e allegro, indistinto, com jogos e reencaminhamentos à Haydn. Mas depois foi mesmo uma versão – a de Carlos Kleiber – que me abriu as portas para esta sinfonia. Um dos prazeres absolutos da música erudita é podermos reviver, no contraste de boas interpretações, o impacto físico e emocional de ouvir uma música pela primeira vez: regressarmos ao momento em que se produziu um encontro em que fomos absolutamente. Em que sentimos, como dizia a rainha D. Leonor, há seiscentos anos atrás e referindo-se à sua vida em Lisboa, que “o tempo que fora dela gastamos, havemos que não é viver”: que não vivemos verdadeiramente fora da música.
Mas com Carlos Kleiber a questão foi diferente: é perceber como uma grande versão torna a partitura nossa, habitável. Neste caso os degraus do primeiro andamento: onde parece que o próprio percurso de Beethoven, ultrapassando alguns códigos clássicos e encontrando absolutamente a sua voz. É o triunfo do encontro, o triunfo de uma voz total. As respostas das cordas impulsionam, como se se ouvisse a resposta a uma pergunta sussurrada a si mesmo e a que nada antes respondia. E depois tudo surge numa afirmação segura, luminosa, onde o jogo já nos parece domínio: como quando ligamos todas as cordas soltas de uma dor e a convertemos em subida.
O Menuetto (terceiro andamento) se ainda lembra Haydn, fala dessa noção total de quem se constrói pelas feridas, com ligeiras zonas de sombra. O final é imparável e desencadeia o progresso da energia e da luz que a Sétima e a Nona interpretarão, de formas diversas: a primeira pela explosão, a segunda pela simplicidade interior dos temas. É um território novo, e quando termina, com o trabalho das cordas a gerar uma tensão inquieta e fundadora, bem parece que estamos num primeiro andamento: que alguma coisa se deverá seguir.
A versão de que falo é a de Carlos Kleiber com a Orquestra da Rádio da Baviera (Orfeo). Mas recomendo, ligeiramente abaixo, mas impecável no movimento dos naipes e na criação de uma arquitectura clara, ao mesmo tempo experimental, perguntativa, a do octagenário maestro polaco Stanislav Skrowaczewski, com a Orquestra da Rádio de Saarbucken, na Oehms. A sua integral é uma revelação de cuidado, de ritmo, revelando a orquestração de Beethoven.
Ouvir esta Sinfonia é como perceber o modo de pensar em música de Beethoven. E conhecermos o percurso de pensamento de um mestre é abrir mais uma porta para perceber “a grande máquina do mundo”.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).
Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.
I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM) Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no co…