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DA GRÉCIA PARA DOW JONES

A revolta dos estudantes na Grécia dura há mais de uma semana. Os jornais apontam que muito em breve o descontentamento poderá alastrar a outras capitais da Europa. É interessante que o registam como um surto, como uma espécie de epidemia que, qual gripe das aves, pode aparecer, preparando a polícia para limpar os escudos de plastiglass e renovar o stock de gás lacrimogénio (que, já agora, está nos limites na Grécia...).
Ainda não perceberam, senhores banqueiros? Ainda não perceberam, senhores Governos? A geração antes da minha, desmotivada por tudo e abebezada por vinte anos de crescimento económico, que não sabe outra coisa senão computadores, ipods, conhecimento googlico, está a movimentar-se pelo futuro. Isso enche-me de orgulho (tirando naturalmente a morte de um estudante, que mostra a estupidez policial) e diz-me que não estamos estupidificados. A geração "600 euros", que acaba cursos e sabe que o destino é um estágio para nada, ou ser sustento ao telefone de cartões de créditos que engordam os prémios dos grandes banqueiros, ou o desemprego longo, está nas ruas. A geração que já não brincou na rua, mas em consolas, e está habituada a tudo de bom, entendeu o sentido desta crise.
O tipo de capitalismo que tivemos até aqui acabou. Não acho que tenhamos o tipo de capitalismo que nos interessa, e que apesar das minhas opções de esquerda consigo entender que é o pior sistema de todos, dentro dos possíveis. Mas é muito claro que acabou o sistema em que o lucro passa por cima de tudo, por cima da dignidade, do pleno emprego, do acesso a tudo. Vivemos na pior época desde há muitas dezenas de anos: a questão é que o bem-estar alargou-se, e enganamo-nos com almofadas que nos parecem permitir tudo (parafernália técnica, crédito, acesso fácil a bens que eram, há decénios, reservados a poucos). Vivemos mal mas bastante consolados com brinquedos.
A geração que representa isto acordou. Não eram nascidos ou eram crianças na crise dos anos noventa. Mas sabem, ainda para mais no berço da civilização ocidental, que a democracia é uma missão comum. Não andam nas ruas por desporto, sujeitos a morrer ou à prisão; não andam nas ruas porque têm um governo corrupto. Andam na rua porque dentro das casas, dentro dos empregos, dentro do futuro, NADA os espera.
Em Atenas, o ministro da Administração interna já nem sai da sede dos serviços secretos, contava ontem o PÚBLICO. Onde estaria o governo de Luís XVI na tomada da Bastilha?
Quando é que vão perceber isto, senhores gestores? Quando é que vão perceber isto, senhores governos? Quando, à imagem da revolução francesa, andar todo o povo na rua, e os mantenedores dos exclusores andarem escondidos em caves?
Da Grécia para o mundo, da Grécia para Dow Jones: o futuro chegou. Mudem o nosso presente, ou vai acabar na rua o vosso futuro.

Comentários

RFF disse…
Concordo em absoluto.

http://hipocrisiasindigenas.blogspot.com/2008/12/somos-todos-gregos.html

Saúde,
Brunorix disse…
Não tem nada de Dow Jones este comentário, mas tropecei (mais uma vez) na sua escrita!

Só foi pena a cor, mas vale o texto...

http://www.cin.pt/portal/portal/user/anon/page/natal2008det.psml?categoryOID=B4828080808580GC&contentid=1481808480CO&nl=pt

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