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UMA OPORTUNIDADE PERDIDA

Quando o mundo se prepara para o que deve ser já a melhor notícia do século XXI – o fim do mandato de George W. Bush – chega o biopic de Oliver Stone. Não deixa de aparecer num timing semelhante ao brilhante Farenheit 9/11, que deitou por terra, pelo mundo, a fachada colada a cuspo (e a medo pós 9/11) do primeiro mandato de Bush. Mas este filme não tem nada de comparável com o filme de Moore, por nem ser um documentário, mas um filme-biografia, e por a intenção firme do outro aqui ser uma orquestra desafinada e sem maestro.
Há uma coisa em George W. Bush que sempre me maravilhou: há nele uma finíssima, estreitíssima linha entre o atrasado mental e o comboy série III. Onde acaba um lado e se inicia o outro, qual Bojador por onde passam todas as nossas angústias. Em Bush há uma maravilha antropológica, psicológica, direi mesmo darwiniana, em que podemos dizer: ele é 90% de macaco e 10% de humano. E o mais maravilhoso ainda é que tudo aquilo parece de geração espontânea, porque por mais que George Bush pai não seja exemplo para nada, não merecia aquela encomenda de filho.
O filme de Oliver Stone não faz nada disto. Limita-se a desenvolver um conflito com a figura do pai, mas nem Édipo nem meio Édipo. É depois uma sucessão das pequenas piadas e acontecimentos que ficaram na história de Bush (o preztel na garganta, o «in History we will all be dead» e por aí fora)sem tirar dessa narração nada de concreto; vamos vendo os episódios sucederem-se, pensando que num outro momento tudo aquilo será revelado, que um momento mais tarde o conflito será convenientemente explicado e explorado, e o que acontece é apenas uma fileira de acontecimentos onde não emerge uma personalidade ou a ausência dela. Cheney e Rice não passam de máscaras, e só Colin Powell emerge com alguma graça. O filme não tem tom, não tem estrutura com intenção firme – é apenas como imitar a forma de alguém falar, sem sequer com isso querermos gozar com alguém.
E George W. Bush é um material excelente para filmes: é melhor que a ficção, e pior que a realidade.
Quem precisávamos para fazer um bom W. era Dmitri Shostakovich. O homem que pôs o mundo alerta e consciente contra os excessos alemães na Sinfonia “Leninegrado”, e de quem Stalin esperava uma grande sinfonia que celebrasse o triunfo (o seu) – mas lhe compôs antes a sinfonia mais irónica e pífia da história da música.
Que a vitória de Obama seja o bem merecido cântico final.

Comentários

Brunorix disse…
E as coisas importantes que aconteceram neste dia?! :)

http://bilhetedeida.blogspot.com/2008/11/yes-we-can.html

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