Avançar para o conteúdo principal

JARDIM PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

A TERCEIRA ("HEROICA") DE BEETHOVEN

Já passaram alguns meses desde as duas primeiras sinfonias de Beethoven, mas foi precisamente por há alguns dias atrás estar precisadíssimo de um furacão dos ouvidos para o coração que fui buscar a minha versão preferida da "Eroica". Cá segue a minha partilha.

Esta Sinfonia contém a dedicatória rasgada mais célebre do mundo: a que Beethoven dedicou a Napoleão, pensando-o um libertador; e rasgou-a quando percebeu a que sonhos de grandeza vinha o pequenote corso. É impossível ouvi-la sem a paixão da dedicatória, antes e depois.

Passei boa parte da minha adolescência a devorar livros de História no Verão ao som desta música. Mais tarde aprendi-lhe mais do que banda sonora para grandes sonhos humanos de liberdade truncada. Daqui nasceu um conto do meu livro de contos, Museu de História Sobrenatural, "Márcia Fúnebre", onde uma personagem feita de morte nasce e morre às mãos dos homens. Há qualquer coisa que liga a justiça necessária de uma alma presa e o destino luminoso que os actos provocam, que nesta música vibra comigo. Como se fosse mais do que música, mas um transferidor de luz. Também já tive uma das minhas primeiras e estranhas experiências sobrenaturais a partir desta música, mas isso fica na minha autobiografia.

Comecei a frequentar esta Sinfonia pela porta mais sentida: a de Furtwängler. A gravação de 1944, com a Filarmónica de Viena, gravada em plena guerra, traz qualquer coisa emotiva desta paixão pela liberdade: como se os músicos tocassem já libertos da prisão que os condenou dez anos, ou Furtwängler os dirigisse, pela música, directamente para um futuro onde só as ideias livres conduzissem os homens. Há qualquer coisa de fúnebre e terrível na célebre "Marcia Funebre", mas segundo o gesto do Maestro, mesmo as explosões de cor e ideia dos outros andamentos têm abismos fundos e cicatrizes a gerá-las.

Não procurem a versão da EMI, interessante mas posterior, mas mesmo a de 1944, que agora circula num volume da Andromeda, com mais sinfonias, a um preço acessível, ou num dos piratas históricos (uma pesquisa rápida mostrou-me haver mais de seis versões disponíveis: basta estarem atentos à data).

E depois veio Toscanini. A versão da Naxos, que encontram facilmente, gravada no ciclo de 1939, quando o grande maestro já se irritava furioso com os fascismos que destruíam a sua Europa. É tão legível a sua interpretação libertadora, violentíssima de dor, da mensagem sem cadeias desta música. O início e sobretudo o último andamento arrastam consigo todas as libertações. Mas talvez para alguns a “Marcia Funebre” pareça demasiado rápida, ou o controle inimaginável que este libertador de partituras desencadeia na sua orquestra não faça alguns ouvintes se sentirem livres – apenas desencadeados de uma energia fulgurante.

Schuricht é outra surpresa. Há uma integral, menos famosa do que eu gostaria, na EMI; mas há uma outra versão na Orfeo. Schuricht é um dos génios da direcção, mas teve pouca hipótese de gravar no pós-guerra: o sr. Karajan e afins ocupavam os lugares, e Schuricht não era já novo.
Qualquer das duas versões por ele assinadas é um compromisso criativo entre Toscanini e Furtwängler: peso interior, ritmos ríspidos. É a interpretação de um Beethoven de 40 anos, olhando para trás com as mesmas ideias vivas mas um olhar mais vivido sobre as coisas. A energia do primeiro andamento, rasgante e renovadora, é impossível de esquecer.

E agora para a grande explosão: para quem quer ouvir a “Eroica” como se tivesse acabado de ter sido composta, Hermann Scherchen. É uma tormenta, a própria essência da revolução. Tempos imparáveis, um ritmo avassalador, uma orquestra tornada fogo e direcção futurada. Pode-se discutir, mas é impossível não entrar para dentro da música. Esta foi a música que coloquei nas grandes vitórias da minha vida, depois do “Magnificat” de Bach. Ou quando Obama ganhou e nós com ele. A possibilidade fundadora do futuro, a essência desta música.

Uma nota: quem quer viver na “Marcia Funebre” todas as dores da perda, a gravação de Ferenc Fricsay, presente na colecção “Great Conductors”, é uma experiência inolvidável. Yehudi Menuhin dizia que se podia ouvir a terra a cair sobre o caixão do que perdemos.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).
Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.
I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM) Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no co…