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QUOTIDIANO INTERIOR, I


Daniel Mendelssohn assina um excelente artigo sobre Kavafis no último número da “New York Review of Books”. Para além de um percurso biográfico e da gestação e publicação das suas obras (pouco mais de uma centena de poemas), cuidadosamente explanado, há uma afirmação extraordinária: «The “real” life of the poet was, in fact, almost completely interior.»
Desde há anos, quando comecei a publicar, que esta questão para mim é a mais clara na missão de escrever: o quotidiano de um poeta é interior. É no processo de uma ideia, na luta entre Jacob e o Anjo, seja ele Deus, o real ou uma concepção do mundo, do corpo, ou da poesia, que se faz a matéria de que o poema é apenas o resultado. Não acredito em poesia que não nasça de um combate interior: não tem forçosamente de obedecer a isso, de ser sobre isso, mas essa luta está-lhe na base, como construção permanente de um edifício.
Considerar que a poesia deva ser só sobre a luta interior seria reduzir o seu papel na arquitectura do mundo. A poesia descritiva, a poesia sobre o real, a poesia de temas históricos (como a de Kavafis, por exemplo) são faces de um poliedro infinito: é redutor se for apenas sobre combates de alma ou de coração. Sou um estudioso e adepto incondicional de José Régio, por exemplo: mas não deixo de notar com tristeza, por outro lado, que a sua poesia a partir de Biografia, o terceiro livro, centrou-se num jogo entre tradição e luta interior que os seus romances ou as peças de teatro traduziram bem melhor do que a poesia.
Considero escrever parte da minha missão com o mundo: a partir do momento em que se publica e alguém nos lê, não é de exposição e tratamento do ego que se trata, mas de um serviço à língua e sobretudo um serviço à vida espiritual do mundo. Edificamos casas no invísivel, espaços onde se possa mergulhar na interioridade, compreender os eixos que nos ligam ao anterior e ao futuro. É criar espaços de respiração contra o imediato. Entendo, sei, sou, que nada que existe no mundo, nada, existe sem ter sido edificado primeiro interiormente. Os criadores são os construtores interiores do mundo. A sua missão não é maior ou menor do que qualquer outra. Mas sem o mergulho e o trabalho no seu quotidiano interior, o que se escreve é um cadáver adiado, parafraseando Pessoa.
O que me baralha na clonagem, por exemplo, é produzir-se um ser novo, repetido, sem os processos de alma que o corpo dá. É no embate do corpo que a alma existe.
Não acredito na poesia como clonagem: colagem de imagens sem a sua sustentação interior. Talvez por isso Kavafis escrevesse menos do que revia, passando tardes de caneta em punho, anotando e revendo os mesmos poemas, anos a fio, até estarem prontos. Até que a luta que os gerou, e os mantinha vivos, pudesse viver intacta.

Comentários

etanol disse…
"Os criadores são os construtores interiores do mundo. A sua missão não é maior ou menor do que qualquer outra. Mas sem o mergulho e o trabalho no seu quotidiano interior, o que se escreve é um cadáver adiado, parafraseando Pessoa."
Também sinto o mesmo e não acredito na colonagem.
Maria João
Parece-me que esse sentimento une qualquer artista, está sempre associado a uma certa angústia, principalmente nos períodos de encubação de ideias; os medos, a ansiedade, as noites mal dormidas, a necessidade de agarrar imagens que brincam às escondidas nas pálpebras da nossa imaginação.

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