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«PROCURA DEUS OU O DIABO?»


Tive há dias um encontro dentro dos poemas de José Régio.
Estava na Biblioteca Pública Municipal do Porto na minha investigação sobre mulheres escritoras 1500-1800. Tinha ido pôr mais um prego nos pulmões e atravessava o claustro, agora cheio de reproduções de imagens medievais, que tapavam as paredes de vidro que protegem o jardim interior. E nisto apareceu-me um homem, careca, óculos, com um ar antigo. Do nada, perguntou-me:
«E o senhor, o que é que vem procurar aqui? Deus ou o Diabo?»
Se não fosse o tom regiano, eu jurava que sorriria e não responderia. Mas qualquer corda me tocou, e respondi-lhe logo:
«Nem um nem outro, mas tudo o que está no meio».
Levantou o dedo em riste e eu imaginava já, à Régio, as paredes medievais a moverem-se com dragões a saírem das bocas dos profetas, o claustro a jorrar sangue, novas revelações em movimento, com os céus em marcha e as nuvens a ribombarem o futuro do céu. Mas não.
«Isso é uma boa resposta. Uma resposta inteligente. É que o que está no meio é o mais complicado de perceber.»
Ainda me falou de burros e elefantes, mas o trovão apocalíptico tinha terminado. Despedi-me com pressa: não tinha vontade de quebrar o momento espantoso.
Mas ainda acredito que foi o espírito do próprio Régio, que num igual em soante sotaque sonoro e tessitura dramática interior, me quis visitar na minha pesquisa.
É que, de facto, ninguém morre. E todos estes espíritos que se cumpriram em páginas e se incumpriram em sonhos velam, viajam e encontram-se, como anjos batendo contra paredes de vidro.

Comentários

etanol disse…
«Nem um nem outro, mas tudo o que está no meio»

Por isso decidi ser seguidora deste blog

;)
Maria João

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