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A OUTRA VIDA DO CORPO


E numa manhã uma nebulosa ocupa o corpo.
Já não nos lembrávamos que era assim: de repente parece que somos levados, puxados, transferidos para fora de nós. E a nebulosa ganha, fica no nosso lugar; parece governar o corpo em movimentos diferentes, pesados. Sentem-se os seus passos em espaços do corpo que pareciam esquecidos. A febre vem, faz-nos sentir que não dominamos nada. E a nebulosa instala-se, corpo leve de vertigem, voz de tosse, gestos custosos, e uma relativa indisposição com o mundo.
Estive doente. Uma amigdalite, nada de grave. Mas as longas tardes em que se olha para o tecto, em que é preciso esconder do frio, e se sente o fervilhar dos micróbios a pintar as paredes da cabeça. Essas longas tardes, como na infância, em que nos sentimos estranhamente em contacto connosco próprios, com qualquer coisa de prévio a nós mesmos, como a criança ou o moribundo vigiados com algum cuidado e uma certa vizinhança do horror.
É como se a infância e a adolescência tivessem tido nas doenças uma espécie de relógio em que o corpo se pudesse ver, em que o coração tivesse tempo para se pensar. Como se fosse um grande espelho, inclinado sobre o real mas longe dele, onde víamos quem fomos e a quem chegamos, a quem de nós finalmente aportámos.
Depois somos adultos, e as doenças são raras. Parece que não sabia quem era esta pessoa que estava comigo, nas dores, pensando no dia a dia, afastada de si. Já não era a criança nem era ainda o moribundo, mas qualquer coisa ligada a eles pelo mesmo laço de um certo isolamento da vida, de uma certa perspectiva féerica e febril.
Será que a doença é um espelho que o corpo impõe para que o interior se veja? Cada vez menos tenho dúvidas: o corpo é sábio.

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