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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2008

«PROCURA DEUS OU O DIABO?»

Tive há dias um encontro dentro dos poemas de José Régio.
Estava na Biblioteca Pública Municipal do Porto na minha investigação sobre mulheres escritoras 1500-1800. Tinha ido pôr mais um prego nos pulmões e atravessava o claustro, agora cheio de reproduções de imagens medievais, que tapavam as paredes de vidro que protegem o jardim interior. E nisto apareceu-me um homem, careca, óculos, com um ar antigo. Do nada, perguntou-me:
«E o senhor, o que é que vem procurar aqui? Deus ou o Diabo?»
Se não fosse o tom regiano, eu jurava que sorriria e não responderia. Mas qualquer corda me tocou, e respondi-lhe logo:
«Nem um nem outro, mas tudo o que está no meio».
Levantou o dedo em riste e eu imaginava já, à Régio, as paredes medievais a moverem-se com dragões a saírem das bocas dos profetas, o claustro a jorrar sangue, novas revelações em movimento, com os céus em marcha e as nuvens a ribombarem o futuro do céu. Mas não.
«Isso é uma boa resposta. Uma resposta inteligente. É que o que está no meio é …

QUOTIDIANO INTERIOR, I

Daniel Mendelssohn assina um excelente artigo sobre Kavafis no último número da “New York Review of Books”. Para além de um percurso biográfico e da gestação e publicação das suas obras (pouco mais de uma centena de poemas), cuidadosamente explanado, há uma afirmação extraordinária: «The “real” life of the poet was, in fact, almost completely interior.»
Desde há anos, quando comecei a publicar, que esta questão para mim é a mais clara na missão de escrever: o quotidiano de um poeta é interior. É no processo de uma ideia, na luta entre Jacob e o Anjo, seja ele Deus, o real ou uma concepção do mundo, do corpo, ou da poesia, que se faz a matéria de que o poema é apenas o resultado. Não acredito em poesia que não nasça de um combate interior: não tem forçosamente de obedecer a isso, de ser sobre isso, mas essa luta está-lhe na base, como construção permanente de um edifício.
Considerar que a poesia deva ser só sobre a luta interior seria reduzir o seu papel na arquitectura do mundo. A poesi…

JARDIM PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

A TERCEIRA ("HEROICA") DE BEETHOVEN

Já passaram alguns meses desde as duas primeiras sinfonias de Beethoven, mas foi precisamente por há alguns dias atrás estar precisadíssimo de um furacão dos ouvidos para o coração que fui buscar a minha versão preferida da "Eroica". Cá segue a minha partilha.

Esta Sinfonia contém a dedicatória rasgada mais célebre do mundo: a que Beethoven dedicou a Napoleão, pensando-o um libertador; e rasgou-a quando percebeu a que sonhos de grandeza vinha o pequenote corso. É impossível ouvi-la sem a paixão da dedicatória, antes e depois.

Passei boa parte da minha adolescência a devorar livros de História no Verão ao som desta música. Mais tarde aprendi-lhe mais do que banda sonora para grandes sonhos humanos de liberdade truncada. Daqui nasceu um conto do meu livro de contos, Museu de História Sobrenatural, "Márcia Fúnebre", onde uma personagem feita de morte nasce e morre às mãos dos homens.…

A OUTRA VIDA DO CORPO

E numa manhã uma nebulosa ocupa o corpo.
Já não nos lembrávamos que era assim: de repente parece que somos levados, puxados, transferidos para fora de nós. E a nebulosa ganha, fica no nosso lugar; parece governar o corpo em movimentos diferentes, pesados. Sentem-se os seus passos em espaços do corpo que pareciam esquecidos. A febre vem, faz-nos sentir que não dominamos nada. E a nebulosa instala-se, corpo leve de vertigem, voz de tosse, gestos custosos, e uma relativa indisposição com o mundo.
Estive doente. Uma amigdalite, nada de grave. Mas as longas tardes em que se olha para o tecto, em que é preciso esconder do frio, e se sente o fervilhar dos micróbios a pintar as paredes da cabeça. Essas longas tardes, como na infância, em que nos sentimos estranhamente em contacto connosco próprios, com qualquer coisa de prévio a nós mesmos, como a criança ou o moribundo vigiados com algum cuidado e uma certa vizinhança do horror.
É como se a infância e a adolescência tivessem tido nas doenças um…

UMA OPORTUNIDADE PERDIDA

Quando o mundo se prepara para o que deve ser já a melhor notícia do século XXI – o fim do mandato de George W. Bush – chega o biopic de Oliver Stone. Não deixa de aparecer num timing semelhante ao brilhante Farenheit 9/11, que deitou por terra, pelo mundo, a fachada colada a cuspo (e a medo pós 9/11) do primeiro mandato de Bush. Mas este filme não tem nada de comparável com o filme de Moore, por nem ser um documentário, mas um filme-biografia, e por a intenção firme do outro aqui ser uma orquestra desafinada e sem maestro.
Há uma coisa em George W. Bush que sempre me maravilhou: há nele uma finíssima, estreitíssima linha entre o atrasado mental e o comboy série III. Onde acaba um lado e se inicia o outro, qual Bojador por onde passam todas as nossas angústias. Em Bush há uma maravilha antropológica, psicológica, direi mesmo darwiniana, em que podemos dizer: ele é 90% de macaco e 10% de humano. E o mais maravilhoso ainda é que tudo aquilo parece de geração espontânea, porque por mais q…