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O MUNDO EM 4 GIGAS

Mínimos quadrados com mais pequenas setinhas. Milhares. O peso da decisão. «Não vai caber, não vai». Decide-se.
«O seu Ipod não tem espaço para todas as músicas seleccionadas.»
De novo, de A para o Z. Mais caixinhas. Dolorosamente o cursor em cima das caixinhas. A decisão é inquisitorial. Como, como é que eu vou passar sem aquela música? Parece que se exclui para sempre, da história, do universo. Vá lá. Carrega-se. Respira-se fundo. Pensa-se como é que vai ser, atravessar um dia, dois dias, estradas de pensamentos, rostos, sem aquela música. Excluída. Tenta-se, respira-se outra vez. A respiração mesma guia o cursor, carrega-se. Já está.
Uma e outra e outra vez. A sensação de perda ocupa todas as caixinhas.
«O seu Ipod não tem espaço para todas as músicas seleccionadas.»
E agora? O que tiro? São duas da manhã. Não cabem as músicas que acabei de passar. O CD novo, a faixa comprada ao site da Deutsche Grammophon. Não.
Volta-se atrás, ao que se habitou. Uma vez, outra. Não, não cabe. «A ciência pesa tanto e o mundo é tão breve.» Pessoa, pois. Ao menos o cérebro tem todas as músicas e todos os versos, armazenados, guardados. A a Z. Outra escolha. Carrega-se naquela faixa onde se foi feliz, naquela onde havia uma janela para o Egipto, outra onde se percebeu tanto de água e improvável.
«O seu Ipod não tem espaço para todas as músicas seleccionadas.»
Um instrumento de tortura.

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