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ERA UMA VEZ UM MUSEU


«A história da administração pública em Portugal confunde-se com a dos manicómios.» Quem o diz, dos finais do século XIX, é Alberto Pimentel. É uma frase de tal forma lapidar (milhares de portugueses sentem precisamente o seu peso – de lápide – todos os dias), de tal forma rasgada na pedra da clareza, que devia estar exposta, ao lado do livro de reclamações, em todas as repartições públicas. Não ao lado do livro de reclamações: na capa!
Pois a história real que contarei a seguir só poderia começar com esta epígrafe.
Em 2005-6, a então Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima (de quem prezo muitíssimo o seu trabalho académico e ensaístico) teve o acto inesquecível de mandar encerrar o Museu de Arte Popular. Tive o gosto de, com um velho amigo, Rui Santos, começarmos uma petição pedindo explicação para o fim do mesmo, e o que aconteceria com a sua colecção. Era o último edifício completo no interior e exterior da Exposição de 1940. A sua colecção era o último elo com uma época (bastante infeliz, do Minho a Timor, mas profusamente representativa), e a última ligação com a arte popular.
Decidiu fechar-se. O edifício, que nunca tivera obras de vulto desde a exposição, praticamente, era mantido por três conservadoras que deveriam ter o seu nome gravado ao lado do arquitecto das capelas imperfeitas, o mestre Domingues; pois andaram salvando colecção entre bátegas de chuva, quedas de tectos, e ministros incompetentes. Tinha obras aprovadas e em processo comparticipadas pela União Europeia para o seu fim como Museu de Arte Popular: e logo o fecho do museu, para aí instalar um museu da língua, iria – dizia-se – salvá-lo e dar-lhe uma nova vida. Como? A um museu com paredes repletas de frescos, onde nem um écran se podia encostar, todo imaginado por arquitectos, escultores e pintores, para ser uma casa e montra de arte popular?
Não. Fechava-se. Então o Brasil tinha um museu da língua e nós, mesmo dali onde as naus saíram e Berardo olhava para a sua colecção, não tínhamos museu da língua? Mesmo agora que íamos, com um maravilhoso acordo ortográfico,impedir que o Português deixasse de ser uma língua de museu?
A colecção foi repartida (ou toda guardada, não sei nem nenhum de nós, creio) nas sobrelotadas caves do museu de etnologia, e/ ou outros. Imagino o que acontecerá a rendas, potes, presépios, madeiras, guardadas em caves, organizadas numa lógica tão clara, espera-se, como a anterior.
Mas o melhor, o melhor início para o novo museu que, qual fenix, salvaria o anterior, é que antes de abrir, saiu a ministra. E há dias, na interessante entrevista que deu ao Expresso, o ministro informou que não vai haver museu da língua. E um dos motivos era, precisamente, porque os fundos estavam previstos para um museu de arte popular, e que seria preciso fazer o museu da língua até final deste ano. Não se fez. Matou-se um museu. MATOU-SE. E não há culpados?

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