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E A RÚSSIA NÃO VOLTOU

Parecia mesmo adivinha depois do "post" anterior: depois do facto do encerramento do Museu de Arte Popular, agora a notícia da suspensão da exposição do Hermitage; e a provável suspensão da parceria que nos custou €1,5 milhões (Não comento já o legado cultural dos responsáveis prévios do Ministério, porque a herança canta por si).
Claro que a Direcção do Museu russo terá as suas questões e culpas: mas também referiu insistentemente a falta de dinheiro que em Portugal impedia tudo e qualquer coisa. Não sei o argumento que usou para Inglaterra, já que também tem lá uma parceria que parece correr mal.
Um milhão e meio para trazer para Portugal belíssimos quadros, muitos deles cópias, e o contacto com os nossos antípodas na Europa. A ideia não é má e até revela uma vontade de estabelecer parcerias diferentes em termos de exposições.
Mas pensemos: quantos frequentadores de exposições em Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Funchal,... viram já os quadros do Museu Grão Vasco? Quantos conhecem a colecção permanente do Museu de Arte Antiga? Quantos sabem as peças magníficas que os museus de Etnologia, Soares dos Reis, Machado de Castro, guardam? E os tesouros das Sés Catedrais?
Um milhão e meio que poderia fazer obras preciosas andarem dentro do país.
Mas não: torrou-se um dinheiro que não há numa parceria sem vez; sem procurar parcerias com empresas que provavelmente o fariam de graça em troca de acordos comerciais úteis a todos. E mais uma vez não se gerou uma política de trocas eficaz em termos de museus.
Mas o que é mais grave: mais uma vez se trocou pelo brilho das Rússias as pérolas escondidas nacionais. Esta política "a galinha do vizinho..." é que não pode continuar. Porque eu sinto falta de ver na minha cidade o melhor dos museus do meu país: museus que não têm funcionários suficientes nem dinheiro para tratar, quanto mais movimentar, peças valiosas.
Esse milhão e meio, que podia trazer estudantes de várias partes do país a museus, convenientemente recebidos por serviços de visitas para escolas capazes, actualizados, bem pagos e dinâmicos.
Esse milhão e meio, que não temos, foi roubado à vida cultural de cada um de nós. Duas ausências: o que não temos e o que nos foi roubado. Continuamos calados?

Comentários

sakiko wang disse…
Olá, Pedro
Obrigada por participar activamente nesta sociedade pirada, que parece esquecer questões prementes como as que tão sabiamente levanta.
: ) *
Maria disse…
"falta de dinheiro que em Portugal impedia tudo e qualquer coisa" A falta de dinheiro é um conceito (muito) vago, sobretudo quando envolve russos que compram equipes de futebol como quem compra o campo da tia Maria em Aguidares de baixo. Portugal teve dinheiro para a Colecção do tio Berardo e não foram peanuts.
Quanto ao levar os jovens aos museus: talvez seja melhor espicaçar também os paizinhos e avós. Vários museus já fazem programas para famílias. Sempre é uma actividade diferente da de ficar em frente à TV a regatear pelo zaping.

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