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A NOSSA NECESSIDADE DE INÍCIOS É IMPOSSÍVEL DE SATISFAZER

Graças a uma edição em DVD aumentada, com cenas (por vezes excelentes) cortadas do filme original, passei estes dias de férias a rever (ou a trever) a trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson a partir de Tolkien.
Mais do que o filme, um épico que ombreia, em dimensões e origem, Os Dez Mandamentos, e que se revê com um prazer incrível como objecto e como jogo de camadas simbólicas inquietante, o que mais me pergunta é a nossa necessidade, como civilização ocidental, de encontrarmos narrativas da origem, cosmogonias, neste momento. A ciência tinha acabado de inventar a sua, o Big Bang, depois de séculos onde Adão e Eva, ou mais recentemente a Teoria da Evolução tinham ocupado lugar. Mas neste momento somos soterrados de novos inícios, como O Senhor dos Anéis, e Narnia, e agora A Bússula Dourada. A grande maioria destas cosmogonias foram escritas há dezenas de anos, nas cinzas das Guerras Mundiais ou da Guerra Fria, é certo; mas é sobretudo a falência de modelos anteriores, de um início científico ou judaico-cristão, que sobressai. A grande roda da História faz regressar longos fantasmas incumpridos: não integrámos nem cumprimos o nosso substrato celta; o Mare Clausum mediterrânico terminou como centro civilizacional, e alargando as nossas fronteiras pela globalização, as raízes antigas, agora aéreas, regressam e pedem que se cumpram. Um mundo bélico, assente também numa oposição entre bem e mal, mas positiva, surge: em todos estes casos o herói debate-se na sua juventude, desconhecimento e pureza interior, contra inimigos de uma natureza bem diferente da sua, mais antiga, mais mágica e mais interior. O Anel surge como uma metáfora da própria vida, como a união entre vontade pessoal, conhecimento e liberdade vital: é a própria vida, e a liberdade de a viver consciente do mal e do bem, que é preciso carregar, contra todos os perigos, até à fornalha do mal, onde se pode destruir. A vida é o anel que liga visível e invisível, bem e mal, e que se deve transportar e destruir aqui no coração do mal. Este princípio, esta cosmogonia, não se fecha em oposições, em merecimentos: carrega-se livremente e destrói-se livremente.
São cosmogonias não pré-feitas, não pré-estabelecidas: implicam o meu esforço para as alterar. Convivem com o sobrenatural e é daí que nasce a sua força e a sua liberdade. São cosmogonias para um tempo em que a religião não é assente no pecado ou no merecimento de ser salvo; para um tempo em que as ideologias morreram; e em que a liberdade individual, e o peso fantasmagoricamente livre da própria liberdade, e de uma missão de cumprir-se, são valores únicos e inteiros. E isso fala demasiado, demasiado, dos nossos tempos. Precisamos de novos inícios porque a História fecha-se sobre o nosso tempo e há raízes que regressam incumpridas. (E daí parafraseio Stig Dagerman): a nossa necessidade de inícios, porque temos de reiniciar em moldes novos, é impossível de satisfazer.

Comentários

Do que temos necessidade é de satisfazer o que nos é impossível alcançar.
O consolo de saber os inícios, esse inalcansável futuro que nos espera, ainda que nunca de portas abertas.
Dagerman esperou(?), procurou pelo seu ´momento inicial´ e acabaou por encontrá-lo, inegavelmente, na morte. Será, por certo, essa a solução última para que o ferrolho da primeira das primeiras horas se desenferruge de vez e nos deixe vislumbrar o que nos é tão caro como o máximo desejo.
Anónimo disse…
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