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SÓCRATES-CROMWELL OU SÓCRATES-LUÍS XIV?

O primeiro-ministro fumou vários cigarros, cortinadamente secretos, num voo fretado pelo governo, em viagem oficial. Não só o primeiro-ministro, mas o seu ministro da Economia, que é afinal o ministro que tutela a ASAE.
O desconhecimento da lei pelo primeiro-ministro fica descortinado pela cortina; afinal fumou às escondidas por pudor, por fuga à lei, ou pela conversa, num conversativo e secreto cigarro? A cortina descortina saber que não devia fazer o que fez.
É impressionante e revelador por si que um primeiro-ministro que se tem revelado implacável numa série de medidas (que podem ser discutíveis, mas cujo zelo é louvável por si), aguentando o Torquemada Nunes e as suas acções, entre outras políticas, deixe abalar a sua imagem. Já lá iremos. Mas antes vamos à curiosa afirmação de que «lamenta a polémica»: uma polémica não se lamenta. Pode lamentar que o seu acto tenha gerado tal polémica. Mas o que o primeiro-ministro lamenta é que o seu acto tenha revelado a posição insustentável de uma lei do tabaco demasiada, que devia já ter sido revista. Lamentar a polémica pode revelar (quero dizer descortinar) o pior: que não gosta de polémicas democráticas, da discussão livre de actos e acções. Essa discussão é a base e o fermento de uma vida democrática. Se o fumo deu em fogo, é porque pouco discutimos. Quero, desejo supor que queria então o primeiro-ministro dizer que lamentava a polémica que ele acendeu, as cortinas que queimou.
Repare-se que a declaração final de que deixará de fumar, facto e decisão pessoal, serviram para tentar limpar o acto de vez. Tentaram impor a sua imagem de novo: a imagem do zelador incorruptível e de ferro: Sócrates-Cromwell; como até agora a sua imagem de corredor de fundo, entre China e Kremlin (que gosto por países de democracia duvidosa nestas últimas viagens…) esfumou-se na Venezuela. Não é mais o impossível controlador, rigoroso e inatacável, de uma lógica que impôs.
Mas se não aceita a multa, se não pede à ASAE ou a outra entidade competente que o multe e à sua comitiva prevaricadora, é Luís XIV, Antigo Regime. As leis são para o povo, não para os governantes. Espero que a cortina ardida não revele isso. Isso que mais nenhum gesto de rigor e silêncio perante críticas, que mais nenhuma atitude higienista, que mais nenhuma corrida na Praça Vermelha ou em Tianamen pode limpar.

Comentários

etanol disse…
O governo fuma cigarros às escondidas? Os exemplos vêm dê cima!
M;aria João
magnohlia disse…
Que seca! Os jornalistas também fumam nos aviões do ministro e do presidente, mas não se fala disso...
Isto é tudo uma palhaçada.
Maria disse…
Eu lembro-me do destaque do Público para a cena do cigarro: destaque de 1ª pagina + pagina e meia no interior. Sobre os ditos acordos assinados, que supostamente eram vitais para a economia cá da terra, escreveu 1/4 de pagina. Pois ... assim com fumaça nos olhos não vemos para onde vamos.

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