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Jardins para o fim dos tempos



A minha integral das Sinfonias de Beethoven


SINFONIA Nº2



Aqui o ritmo impera, fulgurante, entre encontro e acção, pensamento e decisão. Mesmo no Adagio, ou no Scherzo, há ideias impetuosas, um fogo que incendeia já uma linguagem – para chegar aonde existência e substância coexistem.
Esta Sinfonia é o ensaio de cores de Beethoven. Dinâmicas, melodias, romper e renovar a face: tudo se estuda aqui de uma forma nova.
Há uma teoria antiga, recorrente, de que Beethoven era melhor nas sinfonias ímpares que nas pares. Isso é discutível, embora a Segunda ensaie a afirmação imparável da Terceira, e a Oitava seja o gérmen da Nona. Um grande maestro, George Szell, defendia mesmo que as duas deviam ser ouvidas em conjunto.
Começa-se pelo Adagio e já não há o tentame da primeira sinfonia, a névoa, a desenhar-se: começa-se com um ritmo marcado por metais e tímbales, onde as cordas parecem desenhar arcos de velocidade. É uma fanfarra de ideias. O Adagio é uma brincadeira de delicadeza e súbitos volte-faces, estranhamentos subtis – como quando um olhar repetido se interioriza. No final muitas ideias fervilham, até uma explosão de energia fulgurante.

As versões de Klemperer devem ser conhecidas: quer a “oficial” da EMI, quer as captadas “live” disponíveis na Testament – e Klemperer mudava-se ao vivo; é o homem que preferia ouvir concertos transmitidos na rádio a ouvir um disco; embora tudo aqui seja granítico, lento, com uma certa força de ímpeto que estamos habituados a reconhecer num Beethoven antigo. Naturalmente que vale a pena conhecer as versões de Toscanini, onde tudo se desencadeia imparável, num jogo de ritmos, danças, contradanças mas com pouco jogo e humor. Esta é a mais haydniana das Sinfonias de Beethoven, onde o humor das respostas e da construção pode surpreender, bem como a autonomia de cada naipe orquestral. Também sugiro Fritz Reiner (Sony Masterworks, a que se juntam duas sinfonias de Mozart, a 39 e a 40, praticamente perfeitas): repare-se na coerência com as versões RCA dos anos 60, com o mesmo rigor métrico e metronómico, as mesmas respostas ascendentes, como numa afirmação crescente.
Em todas estas versões o leitor/ ouvinte fica bem: mas se quer ver esta sinfonia rir, subir, dançar, voltar-se sobre si mesma e oscilar entre o pensamento heróico e o prazer de ser, ouça a interpretação de Pierre Monteux com uma orquestra menos conhecida, na colecção “Great Conductors” (EMI). Nunca mais a Segunda vai ser uma sinfonia menor.

Comentários

numerusclausus disse…
gostei de ler. Gostava também, se pudesse, que desse uma vista de olhos pelo que vou escrevendo. até breve, espero.

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