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A CRISE DOS COMBUSTÍVEIS

«(…) Que é um caso nunca visto
Para as velhas do meu beco.

Já os gaiatos
usam palmas e sapatos
e tacões dos mais baratos
mas com a tromba à papo-seco”
Estes versos de uma revista de 1940-1950, recitavam-nos os meus avós contando o efeito que uma lei do Estado Novo, obrigando todos os cidadãos a não andar descalços, teve na época.
Passaram pouco mais de cinquenta anos. E agora tacões e palmas e sapatos foram esquecidos; e passámos depressa para os carros, carrinhos e carrões. Parece que ter um carro era tão obrigatório e necessário como calçar sapatos há cinquenta anos. Gerações inteiras que viveram descalças foram redimidas pelos seus sucessores com o uso de carros. O problema é outro, e a crise dos combustíveis só veio revelar uma ferida anterior: que o nosso uso de transportes públicos, a partir de agora urgente, está associado na psique de muitas pessoas, de boa parte da cultura nacional, a um uso de pobre.
Afirmava e bem Miguel Gaspar na sua crónica de hoje do “Público” que terminou a idade do carro. E é verdade.
O que se espera agora dos governos europeus, em particular do nosso (amigo-do-betão) é uma política de transportes públicos eficaz, rápida e urgente. Neste momento, e ao galopar do preço dos combustíveis, as pessoas não vão fazer a opção de ir de transportes públicos: vão ver-se obrigadas a usar os transportes públicos. E vão-se defrontar com uma rede cheia de rupturas, com poucas carruagens, poucos comboios, habituada a ser um transporte secundário, terciário, em relação ao carro.
Neste momento o Governo devia agir, e rapidamente, desbloqueando verbas para aumentar o número de autocarros, metros e comboios a circular. Para amanhã, já. Devia provar a sua utilidade e real preocupação com os cidadãos investindo um pouco dos seus orçamentos (roubados aos contribuintes com multas e taxas ilegais e incríveis) programando um aumento do número de transportes e da rede. E deveria reorganizar com urgência a rede. Estamos a falar de quantias diminutas para resolver um problema de tal forma grande que dentro de um mês, três meses, um ano, as redes de transportes entrarão em ruptura.
Desde há cinco anos que não tenho carro e uso transportes públicos. Nunca à hora rigorosa de ponta, mas em horas de muito tráfego. Nestes dias, entre as 9h e as 11h da manhã, vi metros e autocarros mais cheios que nunca; e pensei carinhosamente nos impostos que pago enquanto enjoava a proximidade do perfume da manhã da senhora do lado, ou sentia pisões nos pés de todos os lados possíveis. É inegável, e as estatísticas recentes, com aumento do uso dos transportes em 6% e 12% no mês passado, comprovam-no.
Até quando o Governo vai deixar de estar atento? Até quando a Europa vai perceber que se trata de uma prioridade urgente?
É que, para além da necessidade económica que milhares de pessoas terão para usar os transportes, há que aumentar e salvar a rede e apostar numa campanha de sensibilização para o uso dos transportes públicos que fale directo às preocupações das pessoas: que lhes mostre o quanto poupam nos seus orçamentos no uso dos transportes, no que podem fazer para salvar o planeta usando-os, no tempo que podem poupar e gastar para si (lendo, por exemplo) utilizando a rede. Portugal entrou na idade do carro como entrou na idade do telemóvel tentando com isto resolver os seus complexos fundos de inferioridade perante o mundo: ter carro, e último modelo, última gama; e ter telemóvel, da mesma natureza, fazia esquecer séculos de pobreza e atraso. Saltámos do país sem sapatos de 1940 para os BMWs e Nokias touch de 2000.
É urgente explicar que a crise do petróleo pode resolver um problema de cidadania; e um problema de inferioridade em Portugal. Se o Governo fizer o que deve.

Comentários

Concordo plenamente. É necessária uma rede de transportes públicos em condições. Quantas e quantas reportagens recentes não denunciam queixas de muitos utentes de estradas problemáticas como a IC19, que se queixam que não têm outra hipótese senão utilizar carro porque perto de suas casas não existe rede de transportes públicos. Muitas vezes é necessário apanhar não sei quantos autocarros para conseguirem chegar aos empregos. Por incrível que pareça eu, que sou natural das Caldas da Rainha, quando lá morava demorava tanto tempo a chegar a Lisboa como demoro agora para chegar a minha casa que fica nos arredores de Lisboa. E eu tenho comboio que me liga a Sta Apolónia ou Entrecampos.
No entanto, penso que outra questão se começa a colocar, é que com esta escalada dos preços do combustível, todos se aproveitam da situação e também o preço dos passes públicos começa a disparar. Para não falar no facto de que existem outros recursos energéticos alternativos que não são explorados porque, obviamente, não beneficiam os cofres do Estado. Ainda há uns dias recebi um email sobre uma série de modelos de carros electricos, que funcionavam apenas com uma bateria que era recarregável em casa e as empresas que os produziam retiraram-nos do mercado inexplicavelmente. Foram abatidos. E porquê? Porque não davam dinheiro a ganhar ao Estado, não utilizam combustíveis. Enfim, enquanto for o interesse dos que mandam que estiver em causa, temo que este país não passe da cêpa torta.

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