Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2008

A CRISE DOS COMBUSTÍVEIS

«(…) Que é um caso nunca visto
Para as velhas do meu beco.

Já os gaiatos
usam palmas e sapatos
e tacões dos mais baratos
mas com a tromba à papo-seco”
Estes versos de uma revista de 1940-1950, recitavam-nos os meus avós contando o efeito que uma lei do Estado Novo, obrigando todos os cidadãos a não andar descalços, teve na época.
Passaram pouco mais de cinquenta anos. E agora tacões e palmas e sapatos foram esquecidos; e passámos depressa para os carros, carrinhos e carrões. Parece que ter um carro era tão obrigatório e necessário como calçar sapatos há cinquenta anos. Gerações inteiras que viveram descalças foram redimidas pelos seus sucessores com o uso de carros. O problema é outro, e a crise dos combustíveis só veio revelar uma ferida anterior: que o nosso uso de transportes públicos, a partir de agora urgente, está associado na psique de muitas pessoas, de boa parte da cultura nacional, a um uso de pobre.
Afirmava e bem Miguel Gaspar na sua crónica de hoje do “Público” que terminou a ida…

SÓCRATES-CROMWELL OU SÓCRATES-LUÍS XIV?

O primeiro-ministro fumou vários cigarros, cortinadamente secretos, num voo fretado pelo governo, em viagem oficial. Não só o primeiro-ministro, mas o seu ministro da Economia, que é afinal o ministro que tutela a ASAE.
O desconhecimento da lei pelo primeiro-ministro fica descortinado pela cortina; afinal fumou às escondidas por pudor, por fuga à lei, ou pela conversa, num conversativo e secreto cigarro? A cortina descortina saber que não devia fazer o que fez.
É impressionante e revelador por si que um primeiro-ministro que se tem revelado implacável numa série de medidas (que podem ser discutíveis, mas cujo zelo é louvável por si), aguentando o Torquemada Nunes e as suas acções, entre outras políticas, deixe abalar a sua imagem. Já lá iremos. Mas antes vamos à curiosa afirmação de que «lamenta a polémica»: uma polémica não se lamenta. Pode lamentar que o seu acto tenha gerado tal polémica. Mas o que o primeiro-ministro lamenta é que o seu acto tenha revelado a posição insustentável de…

Jardins para o fim dos tempos

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

SINFONIA Nº2


Aqui o ritmo impera, fulgurante, entre encontro e acção, pensamento e decisão. Mesmo no Adagio, ou no Scherzo, há ideias impetuosas, um fogo que incendeia já uma linguagem – para chegar aonde existência e substância coexistem.
Esta Sinfonia é o ensaio de cores de Beethoven. Dinâmicas, melodias, romper e renovar a face: tudo se estuda aqui de uma forma nova.
Há uma teoria antiga, recorrente, de que Beethoven era melhor nas sinfonias ímpares que nas pares. Isso é discutível, embora a Segunda ensaie a afirmação imparável da Terceira, e a Oitava seja o gérmen da Nona. Um grande maestro, George Szell, defendia mesmo que as duas deviam ser ouvidas em conjunto.
Começa-se pelo Adagio e já não há o tentame da primeira sinfonia, a névoa, a desenhar-se: começa-se com um ritmo marcado por metais e tímbales, onde as cordas parecem desenhar arcos de velocidade. É uma fanfarra de ideias. O Adagio é uma brincadeira de delicadeza e súbitos volte-face…