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O SENHOR K.


Assim se referia Wilhelm Furtwängler a Herbert von Karajan – maestro de que se comemora o centenário.
Devo começar por dizer que esta será uma nota pessoal, profundamente pessoal. Eu não gosto, não suporto, não aguento, não considero, não integro, não sou capaz de, não engulo, não digiro, não tolero, não quero nada interpretado pelo senhor K.
Não é que não encontre, nas versões que me foram recomendadas e que conscienciosamente ouvi, um som potente em Wagner, ou o acompanhamento miraculoso de Dinu Lipatti no Concerto 21 de Mozart; mas isso seria negar ao homem que fosse músico, sequer. Tocar com o mais genial pianista do século XX e não saber ouvi-lo seria dizer de uma vez por todas que o homem era um tocador de pratos da Banda Filarmónica de Azeites de Cima. Mas não ouvi, nunca, uma visão renovadora de uma obra. Não há o entusiasmo rítmico e corálico de uma interpretação de Toscanini; o profundo sofrimento de uma leitura de Furtwängler; o granitismo em movimento de Klemperer; as várias vozes que Stokowski cria; o rigor rítmico e expressivo de Szell; a vitalidade rigorosa de Carlos Kleiber; a procura da orquestra original de cada compositor como faz Claudio Abbado. Não: o senhor K é tudo igual, chapas montadas, spray dourado a imitar talha barroca, melancoliazitas baratas para fazer Romantismo, imitações de Furtwängler a três tostões, tocar fortissimo para acharmos que ele é Poseidon dirigindo os mares e esquecermos que naquela tempestade não há mais que meter água.
Ouçam o seu Bruckner, e parece que o compositor era um organista surdo que só conseguia ouvir fortissimo; ouçam o Beethoven do fim (o da EMI, dos anos 60, ainda se consegue suportar), e o mestre de Bona parece uma auto-estrada de metais. Nem pensem em ouvir Mozart, onde o que se ouve é Karajan, só Karajan. Bem dizia Klemperer (cito de memória) que Karajan só conhecia forte e fortissimo.
Claro que a tudo isto ajuda o homem ter sido francamente Nazi e o seu pai lhe ter oferecido uma orquestra; o cartão do partido veio também por oportunismo, para subir nas orquestras locais e tocar nas festas de anos de Hitler. E depois para passar a perna a Furtwängler, esse sim que ficou na Alemanha por resistência, e passou ele processos e rotulagens que ainda não terminaram; e passou-lhe a perna oferecendo aos estúdios ingleses (a Walter Legge, produtor da EMI) o que eles queriam: um maestro que dirigisse como o produtor pretendia. É esta brilhante máquina reprodutiva que nos privou de ouvir as gravações finais que Furtwängler iria fazer para a EMI (a sua integral EMI das sinfonias de Beethoven é compósita, de vários anos e concertos distintos).
Um maestro é uma figura rara, uma corporização prometaica do Romantismo; é o co-criador que deve repensar uma obra com um grupo de pessoas que, cada um, pretende tocar a sua parte com a menor cota de chatices possível. Não é o tirano que faz das orquestras máquinas de repetição das suas vontades, triturantes.
O senhor K é o protótipo do não-ético. É o protótipo do anti-maestro, do que não quer a confluência de todos as potencialidades da orquestra para um bem maior – mas o que se quer ouvir a si próprio. É um dirigista tirano, que quer o bom som e a sua visão, e não um coro entre visão e vozes a partir de uma obra.
O senhor K é presunçoso e vazio. O som polido, ressoante e plástico, destituído de uma visão nova e fracturante do passado. O senhor K acha-se a confluência entre o romantismo e a novas visões interpretativas (qual plural!, a sua!), e não passa de uma esquina suja onde por vezes alguma música passa.
Benevolente leitor: quer comemorar o centenário de Karajan? Compre um cd de Furtwängler. Fará duplamente justiça.

NB – Li com um prazer inaudito o texto de Pedro Boléo sobre Karajan no “Público” de Sábado. Cumprimento-o com entusiasmo pela grandeza do texto, pela pertinácia da análise, pela força e expressão dos argumentos. E um abraço ao Nuno Vieira de Almeida, que defendia à posição contrária, que muito admiro - apesar de me dar o prazer de discordar quanto ao senhor K.

Comentários

Apre, mas que virulência! Eu sou muito mais leigo (ie, ignorante) do que tu sobre música e então sobre a biografia do Karajan nem se fala. Mas devo dizer que em geral o aprecio. Tenho três versões da 5ª sinfonia de Mahler, Karajan (1973), Sinopoli (1985) e Barbirolli (1969) e prefiro claramente a 1ª, por causa do Adagietto. Aliás foi a procura de uma versão que me satisfizesse que me levou a ter três versões desta obra, caso único na minha discoteca.
Pedro Sena-Lino disse…
Pedro,
Obrigado pelo teu comentário. Da 1ª há três versões contrastadíssimas: Horenstein (Unicorn, anos 60), onde se ouvem no primeiro andamento todos os animais do mundo; Solti (Decca, anos 60), com uma versão fulgurante do último andamento); e a minha preferida pelo todo, só disponivel fora de Portugal, Kondrashin com a NDR (EMI, colecção NDR): é o seu último concerto, já que morreu nessa noite depois do mesmo.
Quando ao Sr. K, perdoarás a invectiva contra ele, mas poderá dizer-se que é provavelmente a minha irritação de estimação, juntamente com o Almeida Garrett...

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