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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS



A minha integral das Sinfonias de Beethoven

Então perguntarão: com tanto mal a passar-se no mundo, o homem só fala de música?
É precisamente porque me aguento com dois pés na música que o mundo é respirável.
Na resposta ao post anterior, sobre o inenarrável Senhor K., um amigo perguntou-me: “Tanta verve contra o homem, e diz-me lá se és capaz de propor uma integral de Beethoven sem contar com o homem.”
Aqui fica o desafio. Em fascículos, sublinhados que é um amador, inveterado mas amador, apoiado (ou ensurdecido?) por dias de escuta, que fala.

SINFONIA Nº 1
Não foi aqui que aprendi Beethoven, onde teoricamente ele começou. Foi pelos Concertos, sobretudo o de Violino, por Menuhin e Furtwängler, e pelos de Piano.
Começa por formar-se (como) um nevoeiro, soprado por metais. Qualquer coisa que parece ainda suave e melódica, capaz de oscilar entre a rapidez e imprevisto de Haydn na melodia envolvente, calorosa, que corta as sombras, e alguma coisa de sombra que parece não querer dissipar-se, por poder cair inesperada sobre nós, inquieta e inquietos.
E depois somos dispertos pelo segundo tema, de uma energia de princípio, onde os contrabaixos são fulgurantes de ritmo, e as notas das flautas e clarinetes geram decisões programáticas. Todo o programa novo de Beethoven parece estar neste andamento, melódica e ritmicamente.
No segundo andamento somos comovidos pela delicadeza inesperada da melodia do segundo tema, e o scherzo já é diferente de Mozart ou Haydn na extensão e propósito.
O final começa com uma proclamação: tímbales e metais parecem marcar um fim, e as cordas titubeam. Entre subtileza e grandiloquência, mas depois cordas anunciam um tema final decidido, que parece dirigir-se sem parar para um círculo de clareza.
Sempre tirei daqui a energia para começar um dia, ou avançar entre cansaços sobrepostos. Mas sobretudo a ideia de que a voz de qualquer criador nasce de outros: entre tom e dicção a voz cria-se, mostrando um programa pessoal.

Claro que recomendo sempre Furtwängler (EMI): a grande Ideia que atravessa a Quinta e a Nona já está em gérmen nesta Primeira, para o grande maestro); mas há matizes de energia, quase de Haydn ou até de um barroco de génese, nos Concerti Grossi op. 6 de Haendel.
Quem procurar um compromisso entre sombras e luzes de rapidez, uma diferença marcadamente pós-Haydn, deve ouvir Bernstein (DG) ou sobretudo o excelente Schuricht (Integral EMI ou na colecção “Great Conductors”).
Mas o mais eficaz, no humor, na afirmação, no sublinhar da originalidade, na diferença, nos ritmos fulgurantes e incansáveis, é Toscanini (Naxos, 1939, acoplado com uma 3ª altamente recomendável; é preferível à integral RCA, disponível a bom preço mas menos contrastante que o ciclo da Naxos, a €6 o CD): o som é excelente e posso garantir que depois de o ouvir, Beethoven pode ser ainda um jovem disposto a mudar o mundo.



Comentários

Notebook disse…
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