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BOSTON LEGAL


Não há dúvida que as séries vieram revolucionar a relação com a televisão. Mas sobretudo a nossa relação com o enredo e a narrativa. Num grande filme, em tempo e situação limitada, o jogo de história, conflito de personagem, sentido, lutava-se caro e em génio. Muitas excelentes ideias ficavam no limite pela rapidez e limitação dos meios. Hoje, com a duração que uma série pode ter, personagens, conflitos e narrativas podem demorar-se, criando estados e situações complexas que um filme não ousava conter, ou tinha a possibilidade de sugerir. Esse trabalho revela sobretudo prodigiosos enredos (o caso das boas temporadas de “24”), sugestões apocalípticas e de uma invisível mas permanente luta entre bem e mal (“Carnivale”), retrato de tipos (a primeira temporada de “Donas de Casa Desesperadas”).
“Boston Legal” é um dos casos onde o formato série traz resultados longos e inesperados. Um primeiro contacto com a série parecerá que se trata de um espectáculo superficial, até plástico, com estrelas reavivadas e mais uma sucessão de julgamentos. Mas uma visão demorada mostra muito mais do que isso. É uma série completa, mas não complexa, que num jogo de tipos, à Gil Vicente, coloca no teatro do tribunal toda a sociedade americana. E fá-lo com um bom humor, uma facilidade em representar situações complexas e fracturantes, e um interesse de quem entretem mas clarifica. E por vezes rasga, como no último episódio da primeira temporada, em que Alan Shore vai ao Texas perante o supremo tribunal, impedir que um afro-americano seja condenado à morte num caso em que a dúvida era mais que razoável. É uma cena de quinze minutos, numa interpretação que vai do riso às lágrimas, com ida e volta de um lado ao outro, e que cria e desfaz simultaneamente tudo o que há de brilhante e podre na sociedade americana.
O jogo de tipos não é apenas dentro do tribunal, nos casos – por vezes delirantes, mas americanos, mas dentro da “Crane, Poole and Schmidt”, a firma. Há um tipo marcante: o do advogado que atinge o topo da carreira e que vive do seu nome, literalmente (Denny Crane); a sua situação piora quando um pré-alzheimer se revela. À parte das situações cómicas (é a figura do bobo sábio), este tipo é até violento: quando passamos do pódio, do topo da carreira, à inutilidade e terceira idade? Como e quando se processa essa mudança, e quem somos nós com isso? Quando deixamos de ser o ser social e o nosso verdadeiro ser interior toma o lugar de tudo – e somos excluídos? Até que ponto a sociedade não excluiu uma pessoa limitada? Reinante e confuso, Denny Crane (William Shatner, o “Captain Kirk”) brilha nesta dicotomia. Ainda para mais republicano dos quatro costados e defensor do uso e porte de armas – pormenor explorado, caricaturado e problematizado em vários episódios.
Sem falar no “Ken” republicano e ex-marine, ou de algumas figuras menos interessantes mas igualmente funcionais e capazes em termos de tipos (Shirley Schmidt, a “Murphy Brown” é um dos casos), mas o palco vai para Alan Shore. É uma das personagens mais complexas, e representa o bom e inovador trabalho que uma série pode ter na criação de personagens complexas e profusamente sugestivas. A interpretação de James Spader, que já lhe fez ganhar vãrios prémios, entre os quais um Globo de Ouro, junta Molière com Maquiavel: no circo de um tribunal, de uma justiça que defende ricos contra oprimidos, a sua consciência e inteligência desdobram-se. É um símbolo da consciência social dentro da justiça: de como somos mais pequenos e sucessivamente maiores na sucessão de gestos e crises do dia a dia.
Numa sociedade como a americana, onde o braço da justiça chega a ser irónico nos seus usos de liberdade individual tão excessivos para um europeu, a personagem de Spader simboliza e pergunta. E cada sociedade imperial, cultural ou militarmente, tem o seu teatro, o seu palco de reflexão. Boston Legal é um deles.

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