Avançar para o conteúdo principal

TRÍPTICO: II


nada sobrevive. nem a lembrança do que fomos para além de nós. nem a memória, breve rio sem reflexo, guarda o percurso de uma vida, e menos ainda o seu significado.
hoje é o dia em que o fim revela o fim. em que um homem de braços rasgados às ordens de um Império e à conjura de políticos religiosos revela o fim. nada há para além da Terra, acima dos dias, por dentro das horas, para além dos gestos. hoje o limite foi revelado, o limite morreu.
e se fosse realmente assim, este conjunto de dias desconexos, breves, por vezes brandos, por vezes ásperos. esta sucessão de todas as promessas de ser inteiramente, mas roubadas num golpe?
e se o próprio chão que pisamos fosse o último? aquele chão que vamos ser, com a própria história dos nossos ossos?

acordava dias sucessivos com o ruído de uma explosão. talvez fosse a adolescência a despedir-se, o fim de um mundo onde tudo parecia ser possível ao corpo do coração.
mas sucessiva a Terra a desmembrar-se, arrastando o jogo dos dias consigo; todos os lugares da música e quadros, e frases e livros e saberes onde eu tinha sido, onde eu era eu.
nunca compreendi porque cessou, nem porque começou, essa devastação. rimbombante e permanente das minhas manhãs, da ligação entre duas vidas. porque acordava com o caos.

mas para mim, para mim, a morte morreu. este não é o meu chão, esta não é a minha casa. todos os livros são fragmentos, Bach é uma experiência limitada, a felicidade um relâmpago só. porque alguém se estendeu na morte para ser o meu chão.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…