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TRÍPTICO: I


não é a cruz. não é a morte. círculos parados, esperanças gastas de vazias, falsos deuses, mudanças erradas. não.
nem o símbolo que trouxe paz mas tantos abusos e colisões – não o símbolo, mas o que dele fizeram.
pode salvar-se um símbolo, se o que o sustenta foi abafado em séculos de apropriações? um novo significado da história de Cristo, dessa narrativa que enovela em luz grandezas e pequenezes dos Homens e de Deus, implica um novo símbolo?
para mim a cruz significa dois séculos de bruma. entrecortada de clarões. porque significa o corpo morto, sexta-feira santa, “meu Deus porque me abandonaste” pela história do Homem fora. ao olhar para a cruz, o Homem depara-se sempre com o sacrifício, mas não com o seu fim último; com a morte, até com a vitória da dúvida, com a devastação daquele sacrifício. mas há sacrifícios humanos maiores do que o de Cristo: o Holocausto, hoje o Tibete, os biliões mortos em guerras desde o início dos tempos.
não, não é a cruz que importa: é a luz que vem depois. nos primeiros tempos cristãos, e no milagre de conhecimento e arte que foi Bizâncio, muitas vezes se representava Cristo Panthócrator, Cristo triunfante, a emergir da cruz.
é a Ressurreição que importa. a cruz não é nada; e se é, é o suporte da luz.

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