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NO TIBETE MORRO EU E MUITO MAIS DO QUE EU


No Tibete hoje estão em causa mais do que autonomia ou independência; estão a ser violadas liberdades mais do que fundamentais, como o direito à religião ou à expressão; estão a morrer mais do que tibetanos.
No Tibete, onde passará a chama olímpica que representa um Ocidente que teve como útero o Mediterrâneo, o igualitário mar sem marés, o mar da liberdade do espírito, de tantas rotas de diferenças aproximadas, está a morrer o próprio Ocidente. Incapazes que somos de velar pela liberdade no mundo, incapazes que somos de preservar a autonomia cultural de uma das religiões mais antigas do mundo; incapazes que somos de velar pela independência do espírito e pela expressão das liberdades individuais, mas ainda mais do que isso, das liberdades de um povo.
Peço desculpa do que vou dizer a seguir, mas a chama olímpica, a revolução francesa, centenas de pensadores e poetas que estão sob os nossos pés e os nossos sangues de Europeus múltiplos e únicos, não mo deixam calar: o que se passa no Tibete é igual ao que se passou na Alemanha Nazi. E não é apenas a circunstância de uns jogos que se tornaram comerciais mais do que simbólicos de união de valores básicos que o demonstram. Também a Alemanha ocupou os Sudetas e a Áustria à procura de “espaço vital”, como a China fez com o Tibete; também a Alemanha colonizou territórios, e massacrou autóctones para impor os seus braços culturais. O regime mais opressivo do mundo, que foi tão certamente a Alemanha nazi, tem um sucedâneo asiático cinquenta anos depois. Quem, mas quem não quer ver isto?
No Tibete está a morrer o Ocidente. Nancy Pelosi, speaker da Casa dos Representantes dos EUA, disse e muito bem que nunca mais poderíamos falar de direitos humanos se não soubessemos gerir o que se passa hoje no Tibete. Mas é ainda mais od que isso: não podemos continuar a ser, com chamas de paz e unidade a percorrerem o mundo, quando assistimos ao genocídio, colonização e anulação de uma religião antiquíssima, de um país pacífico, de seres humanos a quem é negado o fundamental da liberdade do espírito.
A imagem dos budistas obrigados a percorrer ao contrário o seu templo principal, acto para eles sacrílego, diz tanto mais que tantas mortes. Sou eu mesmo que estou a morrer. Como é que eu posso ser livre, como, quando no Tibete matam tudo o que eu sou?

Comentários

etanol disse…
também eu estou a morrer e não me sinto livre quando no Tibet matam tudo o que sou.
Maria João
Excelente texto. As razões do meu apoio a esta causa não cabem em tão reduzido espaço, de qualquer modo tenho uma fotografia no meu blog, que talvez lhe interesse ver,
"fala" dos incidentes em Lassa e de
militares chineses. Abrç.

www.adispersapalavra.blogspot.com

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