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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2008

NO TIBETE MORRO EU E MUITO MAIS DO QUE EU

No Tibete hoje estão em causa mais do que autonomia ou independência; estão a ser violadas liberdades mais do que fundamentais, como o direito à religião ou à expressão; estão a morrer mais do que tibetanos.
No Tibete, onde passará a chama olímpica que representa um Ocidente que teve como útero o Mediterrâneo, o igualitário mar sem marés, o mar da liberdade do espírito, de tantas rotas de diferenças aproximadas, está a morrer o próprio Ocidente. Incapazes que somos de velar pela liberdade no mundo, incapazes que somos de preservar a autonomia cultural de uma das religiões mais antigas do mundo; incapazes que somos de velar pela independência do espírito e pela expressão das liberdades individuais, mas ainda mais do que isso, das liberdades de um povo.
Peço desculpa do que vou dizer a seguir, mas a chama olímpica, a revolução francesa, centenas de pensadores e poetas que estão sob os nossos pés e os nossos sangues de Europeus múltiplos e únicos, não mo deixam calar: o que se passa no Tib…

TRÍPTICO: III

A morte não existe mais. Um homem só na cruz matou a morte.
Nunca mais as coisas terminam; nunca mais o limite se impõe sobre ombros, páginas e paisagens, sobre ideias, desejos e concretizações. Tudo pesa o infinito.
Existiremos todos inteiros e definitivos depois do terceiro dia. Com a dimensão certa e verdadeira de luz.
Hoje nunca mais acabaremos.
Hoje a morte morreu: é isso a Ressurreição.

TRÍPTICO: II

nada sobrevive. nem a lembrança do que fomos para além de nós. nem a memória, breve rio sem reflexo, guarda o percurso de uma vida, e menos ainda o seu significado.
hoje é o dia em que o fim revela o fim. em que um homem de braços rasgados às ordens de um Império e à conjura de políticos religiosos revela o fim. nada há para além da Terra, acima dos dias, por dentro das horas, para além dos gestos. hoje o limite foi revelado, o limite morreu.
e se fosse realmente assim, este conjunto de dias desconexos, breves, por vezes brandos, por vezes ásperos. esta sucessão de todas as promessas de ser inteiramente, mas roubadas num golpe?
e se o próprio chão que pisamos fosse o último? aquele chão que vamos ser, com a própria história dos nossos ossos?

acordava dias sucessivos com o ruído de uma explosão. talvez fosse a adolescência a despedir-se, o fim de um mundo onde tudo parecia ser possível ao corpo do coração.
mas sucessiva a Terra a desmembrar-se, arrastando o jogo dos dias consigo; todos os l…

TRÍPTICO: I

não é a cruz. não é a morte. círculos parados, esperanças gastas de vazias, falsos deuses, mudanças erradas. não.
nem o símbolo que trouxe paz mas tantos abusos e colisões – não o símbolo, mas o que dele fizeram.
pode salvar-se um símbolo, se o que o sustenta foi abafado em séculos de apropriações? um novo significado da história de Cristo, dessa narrativa que enovela em luz grandezas e pequenezes dos Homens e de Deus, implica um novo símbolo?
para mim a cruz significa dois séculos de bruma. entrecortada de clarões. porque significa o corpo morto, sexta-feira santa, “meu Deus porque me abandonaste” pela história do Homem fora. ao olhar para a cruz, o Homem depara-se sempre com o sacrifício, mas não com o seu fim último; com a morte, até com a vitória da dúvida, com a devastação daquele sacrifício. mas há sacrifícios humanos maiores do que o de Cristo: o Holocausto, hoje o Tibete, os biliões mortos em guerras desde o início dos tempos.
não, não é a cruz que importa: é a luz que vem depois.…

OS EXCLUÍDOS E O SOLDADO

A tríade que agora se defronta nas eleições americanas representa os três estados do país. McCain é o herói do Vietname, da geração que perdeu uma guerra e muitos sonhos, pragmático nas recusas; uma geração que viveu todos os excessos e todos os contrários (tão interessante como a que sobreviveu à 1ª Guerra, a de Churchill: para ambos tudo estava por fazer, e tudo já se tinha perdido).
Hillary: a quota feminina, embora por um outro lado: pela mulher que não encontra no seu estatuto de mulher a sua força, mas que quer essa autonomia do feminino pela imitação do masculino. Mas não há dúvida que gerações de mulheres-casa, e de mulheres vencedoras nas suas carreiras se encontram nela. Há, sim, nela, um passado fascinante e pouco conhecido, que as biografias recentes mostraram: há 30 anos, esta advogada recém-formada estava no Texas, estado que agora ganhou, literalmente a perseguir os imigrantes mexicanos recém-legais e ilegais para lhes dar plena cidadania e os levar a votar. Nenhum Presi…

O QUE É O DESERTO?

Pergunto-me muitas vezes o que significa estar hoje quarenta dias no deserto. Não tanto estar quarenta dias a pé no meio do deserto, mas estar quarenta dias na mais absoluta solidão, sem procurar encontrar nada.
Penso hoje que não há maior desafio para o homem, em todos os tempos. O deserto é a solidão de tudo mas sobretudo a solidão de si. Um quase viver sem a personalidade.
Nestes dias antes da Páscoa penso na impossibilidade de tudo isto: de como nos é impossível sair dos dias, das suas gestões microscópicas, de nós mesmos desaparecer. Penso no significado de Cristo no deserto, de Buda a atravessar distâncias, de Maomé na solidão. Penso que todos os mestres se forjaram num silêncio que os homens não sabem compreender. Que nascemos, civilizações inteiras, de um silêncio que é o berço de tudo o que é mais positivo e nosso: e que não sabemos abarcar.
Triste mundo aquele que é um deserto, sim: mas não o lugar fustigante de silêncio e abandono, mas onde nos perdemos, quotidianamente, de nó…