Avançar para o conteúdo principal

PORTUGAL INVADIDO PELOS BÁRBAROS


Lisboa, 2 de Fevereiro de 2057
Entre 2004 e 2008 Portugal, que desde 1974 vinha conhecendo um ritmo pronunciado de desenvolvimento cultural sem precedentes, sofreu uma invasão silenciosa mas metódica que destruiu de todas as suas conquistas de desenvolvimento cultural. Um novo modelo de desenvolvimento, diziam ao momento os seus responsáveis políticos, foi responsável pela destruição do seu tecido cultural, e da própria noção de estado europeu e civilizado. Essa destruição, uma invasão de políticos bárbaros, em tudo se pode comparar às invasões bárbaras que destruiram o Império Romano. Essa acção, metódica e silenciosa e teoricamente em proveito de um bem comum, estendeu-se a todas as áreas.
1. O país foi privado de um serviço nacional de saúde igualitário e próximo do cidadão. Numerosas urgências de hospitais e centros de saúde encerraram. Foram conhecidas, desde 2007 até aos dias de hoje, as centenas de mortos dentro de ambulâncias, os partos de portugueses tidos em Espanha, os doentes que, privados de tratamento, morreram sem condições em suas casas – não contabilizados pela contabilidade do governo, naturalmente.
2. O fim de um museu único, desenhado por alguns dos maiores nomes do modernismo, o único exemplo vivo da Exposição de 1940: o museu de arte popular, frente ao Centro Cultural de Belém. As suas centenas de peças de mobiliário, têxteis, cerâmica, foram repartidas por repartições e caves de museus, desconhecendo-se hoje o seu paradeiro.
3. Um acordo ortográfico sem nenhuma justificação ou comparação com qualquer outro acordo linguístico entre línguas europeias, destruindo a evolução natural do Português Europeu e do Português do Brasil, desfigurando o Português Europeu e quebrando traços essenciais da autonomia e independência de uma língua.
4. O fim do Conservatório Nacional, onde milhares de jovens, com esforço dos seus professores, que os educavam entre ruínas, dos seus pais, e das próprias crianças, entre calendários escolares pesados, aprendiam uma das artes que está na base da civilização europeia. Para um país que nunca teve uma cultura musical ao nível dos seus pares, apesar de esforços ao longo da História, esta medida significou o fim de uma educação musical para toda uma geração. A medida, a acrescentar a sucessivas reformas cegas no ensino básico, a mudanças incompreensíveis no ensino superior, era teoricamente feita por motivos económicos, e em troca as crianças receberiam muitos, muitos computadores.

Este é o país que queremos em 2057? A lista podia suceder-se.
Os atentados culturais deste governo são inqualificáveis, sem par na história do país e do século XXI, e devem ser travadas quanto antes.
Está a circular uma petição online contra o fim do conservatório (http://www.petitiononline.com/CFEEMP/petition.html) e prevista uma manifestação no conservatório no dia 11 às 10h, quando uma comissão do Ministério o fôr visitar.
Devemos todos envolver-nos, participar e protestar. Nunca como agora na nossa vida cultural recente a nossa voz e o nosso esforço deviam fazer-se ouvir. Proteste, envie aos seus conhecidos e amigos, escreva, mexa-se. É aquele o país que quer em 2057? Um país de engenheiros higienicamente providos de computadores?

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…