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O CRIME DA EMPREGADA DE VIANA


- O senhor para nós é um suspeito. É como se fosse suspeito de ter morto alguém. Agora tem de nos provar a sua inocência.

Era um dia solarengo de Junho. A cidade cheirava bem e tudo me parecia solar e perfeito, enquanto descia a Rua da Arrábida, carregado de coisas para a minha nova casa.
Rodei a chave com aquela satisfação da novidade e a emoção da descoberta. E lá dentro: carta das finanças. «Ora cá está a melhor maneira de começar!», pensei para mim. Mas o que lá estava dentro era ainda bem melhor do que um bom início: declaração para apresentar com urgência o modelo 10 do IRS.
Após chamada bombeirica para o meu amigo Miguel, o salvador dos impostos da família e arredores, fiquei a saber que deveria ter uma empregada; e que não só tinha, como ela tinha declarado rendimentos em meu nome. Como nenhuma das duas questões se verificava, o panorama de uma manhã nas finanças nublou o panorama de novidade.
À chegada à repartição, um corredor de expectantes com máquinas de senhas e um écran de cristais líquidos reproduzindo praias e distribuindo ordeiramente letras do alfabeto. Depois de meia hora entre custos, queixas e um ambiente fechado, explico a minha situação.
- Mas o senhor tem uma empregada, sim. Aqui diz. Tem uma empregada a quem pagou quase cinco mil euros. Chama-se Ivânia (nome fictício) e vive em Viana do Castelo. Porque é que o senhor não entregou a declaração, hein?
Expliquei-me como pude: que não tenho empregada, nem sequer casa em Viana do Castelo; que fui lá uma vez aos oito anos e gostei muito, mas que nem eu, pais, irmãos ou congéneres temos sequer casa em Viana. Que deveria ser manifestamente um erro.
O funcionário arregalou os olhos, depois olhou-me com desinteresse, passando toda a devoção para os dedos e olhos religiosos com que percorreu o código do IRS, e perguntando a um colega ao lado, só bigode e óculos, disse-me:
- Se é verdade, preeche aqui um papel e fica resolvido.
Como manifestamente o senhor teve pena de mim, ou como não barafustei perante a sapiência do computador, ou a justeza do serviço, foi investigar. Parece que a senhora colocou o meu número de contribuinte por erro na sua declaração. Essa era a causa. Preenchi o dito papel e fui-me embora pensando atirar o problema para longe.
Passaram meses. Uma tarde de Fevereiro, outra carta das Finanças. «Coima» a pagar até poucos dias depois, por não ter apresentado a declaração. «Mas de quê?», pensei. Outra manhã nos impostos, o mesmo funcionário.
Notei que de Julho para Fevereiro, o tom de abatimento geral e o manuseamento aflitivo das carteiras me mostrava como toda aquela boa gente parecia estar dentro da cova dos leões.
Primeiro recebeu-me com o mesmo silêncio, escrutinando com gestos precisos e olhar cumpridor a missiva das Finanças. Voltei-lhe a falar de Ivânia, de Viana do Castelo, e do caso do número errado. Circunspectamente folheou, agora mais rapidamente (e talvez com menos respeito, digo eu) o seu código do IRS, e diz-me que sim, que é por causa de Ivânia, de Viana, a empregada que eu não admito ter.
Voltei a explicar. Falei-lhe do papel. Pedi desculpa por não ter cópia do tal papel que ele me dera, meses antes, em que explicava que não tinha empregada. Tinha a casa em obras, e…
- A casa em Viana do Castelo?
Não, era mesmo ali ao lado.
- E a casa em Viana?

Voltei a dizer-lhe como gosto de Viana, de Santa Luzia, do Minho, das Minhotas, da viagem de infância que fiz com os meus pais, mas que
- E tem casa lá?
Respondi-lhe com o papel que fizera antes. E que me tinha dito que ficasse
- Descansado? Eu nunca lhe disse que ficasse descansado.
Comecei a perder a paciência. O erro não era meu, tinha sido detectado, falei com tempo, expliquei, fui lá, e agora perdia outra manhã. E então veio a frase, a magnífica frase, a luz de um país de trevas:
- O senhor para nós é um suspeito. É como se fosse suspeito de ter morto alguém. Agora tem de nos provar a sua inocência.
Não bastando, sugeriu-me que tirasse outra senha, que fosse a outro andar, que voltasse a explicar, que emitisse novo papel. Mas que «seria melhor pagar, o Estado depois devolve, e assim evita que aconteçam coisas mais chatas».
Pagar 150 euros pelo erro - pelo crime! - de Ivânia parecia-me demais.
A meu pedido, voltou a abrir a informação no écran. E lá estava: Ivânia tinha colocado na sua declaração de impostos um número de contribuinte exactamente igual ao meu: mas com um 8 em vez de um 5.
Descansei. Disse ao zelota, ofuscado pela inocência, como era erro. Os pulmões abriram-se e entre os cristais líquidos, senti a mão poderosa da sorte.
- Sim, é erro, mas até isto estar resolvido pela senhora em causa pode levar o seu tempo. Olhe que hoje em dia...
Pensei na professora primária de Ivânia: aquela que lhe devia ter dado umas nalgadas quando punha coraçõezinhos em cima do “i” e “5” que pareciam “8”. Que falta que essa boa senhora, Minhota, de Missa em Santa Luzia e veneração pela ordem, fazia agora ali naquela sala.
Infelizmente, eu não conhecia Ivânia, nem a professora, só mesmo Santa Luzia; e essa, que perdera os olhos, bem devia pô-los de novo para ver o que se estava a passar. O Estado, monstro burocrático cego, enganava-se e queria que eu pagasse pelo erro.
Recusei-me a pagar. Já há anos que o Estado me deve meses da Segurança Social pagos a mais por erro deles, e nunca vi um tostão.
Lá fiz novo papel. E a nova senhora disse-me, passando um papelinho para a mão, que ficasse descansado.
Até ver.

Comentários

Oh meu amigo, só te acontecem histórias do arco da velha. Mas o raio da empregada de Viana nunca mais te deixa em paz?
Isto das Finanças é mesmo um horror, é um cancro nas nossas vidas.
etanol disse…
E a casa de Viana? É um absurdo.
Maria João

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