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A LINHA INVISÍVEL


«O medo é como a repulsa do feio, do fecal, do incestuoso, do impuro e proibido, de tudo o que a razão (que é a Sociedade interiorizada) nos ensina e habitua a condenar e a reprimir em nome do belo, do são, do puro, do respeitável, do sujo, do útil ou do conveniente, erguidos em regras de conduta, mandamentos ou finalidades» (José Rodrigues Miguéis, «O Breakdown»).
Ando há semanas numa felicidade incrível a ler Rodrigues Miguéis de fio a pavio: o que conhecia e o que não conhecia. Isso só é possível graças à Byblos, onde encontro livros que nem na Feira do Livro, em dias de sorte. É dele a frase de um homem torturado por si mesmo, entre os limites da compreensão e da auto-perseguição, desesperado por encontrar a linha por onde se governa e onde se separa a imposição exterior, a regra, a norma.
Os instrumentos de pressão são mais dúbios, mais eficazes: hoje, vão retirando não a liberdade, mas a participação no todo. Ironia final de uma Europa social: de um capitalismo que acabou por tornar as liberdades individuais prisões individuais, do bem-estar fazendo um mais necessário e desesperante ter-estar. A condenação, hoje, de quem é carrasco, é incapacitar cada um de ter acesso ao que os outros têm: é fazer mergulhar numa pobreza que não é apenas não ter, mas não ter e por isso não ser.
Os patrões exploram empregados a recibos verdes, com horários e atribuições bem para além do que ganham, sob ameaças concretas; o Estado ainda mais, carregando pressões fiscais inqualificáveis; e pelos corredores do poder ameaças veladas excluem e fazer deixar de existir.
É este o nosso tempo: em que o bom, o belo, o são, de que falava Rodrigues Miguéis, não é já andar na verdade de si mesmo, na sua integridade, a todo o custo e a todo o risco; mas anular-se, deixar-se vigiar e controlar, sob pena de deixar de ser.
A linha é invisível: e quando sentimos a sua pressão sobre os nossos dias, já avançou um pouco mais. Para dentro de nós.

Comentários

Byblos, onde encontro livros que nem na Feira do Livro, em dias de sorte....
:)


verdade.

uma quase "catedral"...

felizmente.

______________e depois outra vez sorte. minha. em o ter decoberto através da Tradução da Memória...:)


volto.

mais tarde.

abraço. cordial.

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