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ESCRITA EMPENHADA, HOJE


Cada vez que oiço uma gravação de Pablo Casals, célebre violoncelista catalão do século XX, penso nisto; penso num homem ferozmente anti-franquista que se instalou em Prades, na fronteira francesa com a Espanha, e aí dirigia um festival; ferozmente contra a fronteira da opressão, fazia música. E fazia-o cantando. Era ele que dizia aos seus alunos que quando o tema de uma peça chegasse, o violoncelista devia cantar. É mais um rugido, directamente do coração da música, da própria liberdade, contra as muralhas da opressão.
Quando penso no que é pedido a um artista hoje, não é decerto que se empenhe em nenhum dos temas porque lutámos nos últimos cem anos: nem o feminismo, nem os direitos das minorias étnicas, nem os direitos das minorias sexuais. estes estão incluídos na nossa voz e devem ser recordados. mas o grande combate hoje parece-me ser pela grande ideia perdida do Ocidente: a identidade.
nas margens do correcto, do comportamento higiénico e trendy, do capitalismo devorante, um artista hoje deve lutar pela identidade: pela preservação das liberdades que constituem o homem como indivíduo: sociais e éticas, filosóficas e quotidianas.
rugir enquanto a música soa, certa.

Comentários

João Ventura disse…
VenturaRugir, claro, enquanto a música soa. E sob esse rugir de fundo, ir retraçando novas possibilidades para o mundo. Convocando também a identidade perdida.Certamente.
Pedro Sena-Lino disse…
obrigado, João, pelo seu comentário. o que há a fazer agora é a invenção do rugir!
etanol disse…
O meu maestro José Robert dirige a rugir, por vezes é terrivel, porque tem uma voz muito grave e vai murmurando o som e quando um concerto é para gravar temos de o alertar para rugir mais baixo - se não fica sempre uma sombra, um rastro no nosso som de conjunto.
:)
Maria João

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