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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2008

O CRIME DA EMPREGADA DE VIANA

- O senhor para nós é um suspeito. É como se fosse suspeito de ter morto alguém. Agora tem de nos provar a sua inocência.

Era um dia solarengo de Junho. A cidade cheirava bem e tudo me parecia solar e perfeito, enquanto descia a Rua da Arrábida, carregado de coisas para a minha nova casa.
Rodei a chave com aquela satisfação da novidade e a emoção da descoberta. E lá dentro: carta das finanças. «Ora cá está a melhor maneira de começar!», pensei para mim. Mas o que lá estava dentro era ainda bem melhor do que um bom início: declaração para apresentar com urgência o modelo 10 do IRS.
Após chamada bombeirica para o meu amigo Miguel, o salvador dos impostos da família e arredores, fiquei a saber que deveria ter uma empregada; e que não só tinha, como ela tinha declarado rendimentos em meu nome. Como nenhuma das duas questões se verificava, o panorama de uma manhã nas finanças nublou o panorama de novidade.
À chegada à repartição, um corredor de expectantes com máquinas de senhas e um écran de …

A LINHA INVISÍVEL

«O medo é como a repulsa do feio, do fecal, do incestuoso, do impuro e proibido, de tudo o que a razão (que é a Sociedade interiorizada) nos ensina e habitua a condenar e a reprimir em nome do belo, do são, do puro, do respeitável, do sujo, do útil ou do conveniente, erguidos em regras de conduta, mandamentos ou finalidades» (José Rodrigues Miguéis, «O Breakdown»).
Ando há semanas numa felicidade incrível a ler Rodrigues Miguéis de fio a pavio: o que conhecia e o que não conhecia. Isso só é possível graças à Byblos, onde encontro livros que nem na Feira do Livro, em dias de sorte. É dele a frase de um homem torturado por si mesmo, entre os limites da compreensão e da auto-perseguição, desesperado por encontrar a linha por onde se governa e onde se separa a imposição exterior, a regra, a norma.
Os instrumentos de pressão são mais dúbios, mais eficazes: hoje, vão retirando não a liberdade, mas a participação no todo. Ironia final de uma Europa social: de um capitalismo que acabou por torn…

ESCRITA EMPENHADA, HOJE

Cada vez que oiço uma gravação de Pablo Casals, célebre violoncelista catalão do século XX, penso nisto; penso num homem ferozmente anti-franquista que se instalou em Prades, na fronteira francesa com a Espanha, e aí dirigia um festival; ferozmente contra a fronteira da opressão, fazia música. E fazia-o cantando. Era ele que dizia aos seus alunos que quando o tema de uma peça chegasse, o violoncelista devia cantar. É mais um rugido, directamente do coração da música, da própria liberdade, contra as muralhas da opressão.
Quando penso no que é pedido a um artista hoje, não é decerto que se empenhe em nenhum dos temas porque lutámos nos últimos cem anos: nem o feminismo, nem os direitos das minorias étnicas, nem os direitos das minorias sexuais. estes estão incluídos na nossa voz e devem ser recordados. mas o grande combate hoje parece-me ser pela grande ideia perdida do Ocidente: a identidade.
nas margens do correcto, do comportamento higiénico e trendy, do capitalismo devorante, um artis…

PORTUGAL INVADIDO PELOS BÁRBAROS

Lisboa, 2 de Fevereiro de 2057
Entre 2004 e 2008 Portugal, que desde 1974 vinha conhecendo um ritmo pronunciado de desenvolvimento cultural sem precedentes, sofreu uma invasão silenciosa mas metódica que destruiu de todas as suas conquistas de desenvolvimento cultural. Um novo modelo de desenvolvimento, diziam ao momento os seus responsáveis políticos, foi responsável pela destruição do seu tecido cultural, e da própria noção de estado europeu e civilizado. Essa destruição, uma invasão de políticos bárbaros, em tudo se pode comparar às invasões bárbaras que destruiram o Império Romano. Essa acção, metódica e silenciosa e teoricamente em proveito de um bem comum, estendeu-se a todas as áreas.
1. O país foi privado de um serviço nacional de saúde igualitário e próximo do cidadão. Numerosas urgências de hospitais e centros de saúde encerraram. Foram conhecidas, desde 2007 até aos dias de hoje, as centenas de mortos dentro de ambulâncias, os partos de portugueses tidos em Espanha, os doente…