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MUDAR A ESSÊNCIA OU A APARÊNCIA?

«Pelo meu lado, vejo pouca glória num império que governa as ondas mas é incapaz de limpar os seus esgotos.» A frase é de Churchill e refere-se aos americanos, num discurso célebre em Dezembro de 1901. Cai como uma luva no discurso do estado da nação proferido há dias por Bush, mas não são essas latitudes que interessam. As remodelações têm sempre esta questão: muda-se a essência ou a aparência?
O que esta remodelação deveria significar, seria a tentativa de renovar a relação de cada cidadão com o Estado. Há uma quebra de confiança brutal em que o Estado se tornou persecutório, não fiável, vigilante. Da administração fiscal devorante ao fecho de urgências, vários pilares e mesmo a arquitectura de um estado social e assente em conquistas do socialismo ficou tremida. Ninguém hoje dirá que confia no Estado; mas dirá que o teme. Voltamos aos índices de confiança na coisa pública e na sua gestão mais próximos de Luís XIV; e em que os níveis de confiança teriam sem dúvida apenas justificação pela substituição do poder discricionário do senhor medieval pelo do Rei.
O que esta remodelação implicaria, e por ser de tal modo limitada não o fará decerto, era rever políticas e refirmar claramente a confiança entre estado e cidadão. Explicar claramente em palavras e acções que a promoção da cultura é essencial para cada país europeu, e uma urgência na sociedade globalizada, onde cada cidadão se sente cada vez menos de uma nação e cada vez mais um membro de um todo genérico; e perceber que esta promoção da cultura implica muito mais gerir o comum através de parcerias e de uma aproximação do cidadão à sua tradição, mais do que legislativice inútil ou a eficaz gestão de um orçamento fantasma. Ou, por uma vez, decidir trabalhar o urgente (e economicamente fertilíssimo) papel do Português do mundo: o que não se faz decerto em Belém com a morte de um Museu e o nascimento de outro (se é que não abortou…).
Implica, também, mudar claramente o perfil à Sheriff de Nottingham da administração fiscal; explicar que há uma questão de mudança de paradigma e uma procura de equidade na colecta de impostos; e não permitir a deriva sangessugática da cobrança a todo o custo. E, na Saúde, quebrar um ciclo de destruição pela poupança que só fará crescer subsistemas de saúde laterais, errados, nocivos e absolutamente contrários ao princípio igualitário do sistema nacional de saúde.Só aí se mostrará que se pode governar as ondas do déficit, mas se é capaz de limpar os esgotos das próprias acções.

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