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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS, IV

Anton Bruckner (1824-1896)

A primeira vez que, adulto e consciente (ao que saiba) ouvi uma sinfonia de Bruckner pela primeira vez, deverei ter tido qualquer coisa semelhante a um enfarte. O meu coração disparava em luzes de compreensões sucessivas, enquanto um mar imparável rasgava-me o peito em choques sucessivos.
Não sei é possível subir com música. Acredito que quando morrer Beethoven, Brucker, Mahler, Brahms, Mozart, Bach, mas também Ella, Sarah Vaughan, Billie, John Coltrane, me receberão na música imparável que é espaço e tempo. Até lá sei que alguma coisa próxima de subir eu fui com Bruckner.

O meu pai dizia-me aos meus dezoito anos: «abóbadas de som, abóbadas de som». Agora não é a imagem da catedral que me surge, eu que gosto de ver Deus em espaços onde não está, ou onde é mínimo e pequeno como se mostra. Mas estas clareiras levantadas, espaços mergulhados em luz cortante, sucessiva, de pulsos levantados perguntando o fim e o início de todas as coisas, que falam mais alto que os dias perdidos e o coração esmagado, são mais altas que eu mas tão profundamente eu.

Queria escrever sobre Bruckner. Mas não o sei fazer. Sei apenas que este homem, organista simples que vestia roupas demasiado largas para o seu corpo, que uma noite recolheu uma prostituta da rua e a deixou dormir no seu quarto porque pensou que era uma pobre rapariga com fome, que gerou Mahler nas suas sinfonias de hora e meia, percebeu tudo do mundo: uma escada, uma escada: feita de pedra da nossa condição, para que um coração se torne carne. E suba.

[Para quem quiser conhecê-lo, as seguintes referências:
Quarta Sinfonia
Filarmónica de Berlim, Wilhelm Furtwängler (1951)
Archipel/ Music & Arts (som histórico)
ou Filarmónica de Berlim, Eugen Jochum (1967)Deutsche Grammophon

Sétima Sinfonia
Filarmónica de Berlim, Wilhelm Furtwängler (1951)
Archipel/ Music & Arts (som histórico)
ou Filarmónica de Munique, Sergiu Celibidache (1998)

Nona Sinfonia (incompleta)
Filarmónica de Berlim, Wilhelm Furtwängler (1944)
Archipel/ Music & Arts (som histórico)

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