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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS, III



O DESACORRENTAR DOS ABISMOS: Wilhelm Furtwängler


Devo a Wilhelm Furtwängler muitas coisas.
É estranha a gratidão que temos a uma pessoa que só conhecemos morta, mas na sua maior vida: no que a caracterizava, no que foi a procura de transcender o seu tempo, o seu corpo, a sua própria vida. Mas é uma gratidão múltipla, total: e a maior e mais clara das dívidas é ter-me ajudado a habitar os abismos.
Ele acendia a partitura, guiava-me por lugares onde o ambiente e o discurso eram sombras. Deixava as minhas sombras falarem, moverem-se com a música: e conseguia ver-me, ouvir-me nesse espelho de mares interiores e acesos.
Mesmo a um mero passeante de música clássica, a audição de uma peça interpretada por Furtwängler não o deixará indiferente; ele pretendia, conscientemente Nietzschiano, que o sofrimento é o único lugar onde o homem aprende consigo: e procurava, nas suas interpretações, que esse choque vital levasse o homem a cair dentro de si mesmo e encontrasse o seu próprio caminho. «A suprema qualidade da tragédia é ser libertadora e redentora», escreveu.
Não queria que este texto fosse sobre música. Porque é de uma dívida que se trata, da dívida com alguém que só conheci morto, numa vida contínua, jorrante. Mas ninguém pode passar sem a experiência de fechar os olhos e ouvir a Quinta de Beethoven, em directo de Berlim, ou a Nona de Bruckner ambas tocadas sob bombardeamentos iminentes em 1944; uma Nona de Beethoven erguida de um tempo vivo e grego; e um Brahms (a Terceira e a Quarta sinfonias, sobretudo) onde não se ouve, mas se vive tudo: do coração inconstante da adolescência à presciência do fim, ao orgasmo primeiro, à compreensão de um renascimento, à adivinhação do que é sermos o nosso próprio fim.
Faria no próximo 25 de Janeiro 122 anos. Mas devo-lhe alguma coisa que é mais que a sua passagem na terra, que a circunstância da sua vida. Alguma coisa tão dentro da morte, tão a transcendendo.

Comentários

etanol disse…
querido pedro,

gosto muito muito dos teus textos sobre maestros e música, são uma surpresa!
Maria João
Pedro Sena-Lino disse…
Obrigado minha musa canora

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