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JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS, I



Sinfonia nº 7 de Dvořák


London Symphony Orchestra, Carlo Maria Guilini (1977)
EMI Gemini 0946 3 0859 2 1 Stereo ADD

[Quando iniciámos este blogue, em Outubro, no texto inicial fixámos que todos os “posts” teriam em comum quererem ser crónicas e procurarem reflectir do estado da civilização. Essa é a nossa linha central, mas de vez em quando outras questões nos convocam. Começo aqui hoje uma série de crónicas sobre música, livros, filmes e séries que, embora se cruzem com o nosso tema central, fogem deste por vezes (e felizmente).]

Desde o primeiro encontro com este disco que nunca mais fui o mesmo. Não há um momento silencioso em mim em que esta música não surja, mais nítida e real do que se a ouvisse, misturando memórias de sons e o próprio lugar do meu rosto.

Ao princípio, uma melodia negra, sussurrada, quase um fantasma interior. Ganha forma, e sobe, e concretiza-se, como quando somos apenas um corpo movido por uma obsessão, rasgados para o fim.
E nunca se acalma: a mesma melodia negra começa e termina a sinfonia, correndo os quatro andamentos, fazendo aparições bruscas e assustadoras, como uma recordação violenta.
Esta música é o estado interior de um herói. Alamedas de sons desnudam paisagens incumpridas. E tempestuosamente não chegamos a ser; levantam-se actos de sede. Sonhos e conquistas, passado e futuro cruzam-se na mesma inquietação. Não descansa em si mesma. Se procura momentos de passagem, regressa como que para pedir as nossas próprias irrealizações, a nossa irrealidade, para se formar em braços e mergulhar-se de nós.
Foge-nos e devolve-nos, sistematicamente: o nosso destino é jogado como vagas sob um céu de pedra. Foge-nos de nós e foge de nós. E de repente somos apenas isso, durante a sua travessia de nós mesmos: um jardim onde havia, afinal, tantas sombras que não conhecíamos já; e entre elas, esculpido, o nosso peso em água.

A comparar interessantemente com o "live" do mesmo Giulini com a New Philarmonia de 1969 (BBC Legends), menos dramático. Aguardo porém, ansiosamente, que a Decca e a Mercury reeditem as gravuras de pânico desta sinfonia, dirigidas respectivamente por Pierre Monteux e Antal Dorati. Até lá, esta gravação de Giulini fala de uma nobreza interior imparável, como se o rosto de uma estátua se imprimisse na nossa vontade.

Comentários

Anónimo disse…
e assim se escreve de quando a música é poesia (e não o contrário).

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(para a Cuenca; e para a Claudia, o Miguel e o Nemo)

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