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INTELLIGENT DESIGN


Parece que a direita radical americana este ano não tem candidato. O lamento, um pouco pelas notícias, de vez em quando faz-se notar. Mas é mais um mianço que propriamente um lamento. A verdade é que depois do disparate Bush, que vai levar dezenas de anos a consertar (isto se tivermos sorte), concerteza que há um candidato. Está é inteligentemente desenhado numa agenda onde isso não surge. E de repente começará a subir nas sondagens, e se ganhar o cargo, ou até a nomeação republicana, mostrará as suas divisas.
Depois de dez anos de Bushismo, para além da ordem mundial alterada, uma semente grave foi semeada. Os Estados Unidos pareceram para uma geração (a dos nossos avós, nascida entre 1910 e 1920) a concretização directa de vários sonhos: o país formado a partir dos ideais do Iluminismo, o directo descendente das melhores conquistas da Revolução Francesa, um garante da independência do pensamento e da identidade do indivíduo, o “salvador” da Europa. Lembro-me bem do meu avô me dizer, após longas discussões: «Se não fossem os Americanos, estávamos ainda aqui a matar-nos uns aos outros e não estaríamos aqui sentados a ter esta conversa”.
Infelizmente, um espírito colonial, que vive no sangue dos Estados Unidos com os ideais de liberdade, é mais forte: trezentos anos de colonização, do Mayflower à conquista do Oeste, são mais antigos e fortes do que os cem ou cento e cinquenta anos em que verdadeiramente foram um país – da guerra civil à conquista definitiva dos grandes espaços. Mas essa semente negativa, plantada pela Administração Bush, e bandeira dessa direita radicalíssima, já aí está e dá frutos. Quem imaginaria, na Europa, que nas escolas fosse ensinada, a par das teorias da evolução, a teoria da evolução a partir de Adão e Eva, o “intelligent design”, rótulo agradável que faz soar tão bem como ter uma peça de Philippe Starck. Há dias, no primeiro episódio da Quarta temporada de “House”, o protagonista dizia: «venho dos macacos, se acreditares nos Democratas».
Fazer uma geração inteira crer num disparate literal, numa interpretação literal, é rasurar os princípios que definiram um Estado; um Estado que continua a ser, em muitas vertentes, um exemplo de valores ocidentais preciosos concretizados.
Parecem-me ser sinais de decadência: e revelarem sobretudo um péssimo estado de uma civilização. São sintomas de que séculos de racionalismo libertário regridem. Os próximos dez anos o dirão. Até lá, atenção a que agendas saiem dos mais insuspeitos – aí veremos a semente alastrar.

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