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DO CONTROLO SOBRE O INDIVÍDUO

Sim: este texto é sobre a proibição de fumar em espaços fechados. Mas não é apenas sobre isso: é sobre uma deriva legisladora sobre o indivíduo sem precedentes.
Claro que os fumadores portugueses (sou um, já deixei de o ser, voltei a ser) primavam pela falta de respeito pelo outro. Mesmo como fumador me senti muitas vezes incomodado com os cigarros dos outros; bem como com a falta de civismo, mas medidas para isso… Fazia falta uma lei, sobretudo em espaços públicos; mas não esta incoerência que regula sobre o privado. Estou à espera da lei que me proibirá de fumar em minha casa; e as últimas vezes que me bateram à porta, esperava já um vizinho higiénico a dizer que ao passar pela porta da rua sentiu cheio de fumo. Falta pouco para isso acontecer: e sobretudo porque se passou um limite.
Um cidadão deve medir-se pelo respeito pelo Estado, cumprindo impostos, zelando pelo bem comum, respeitando o outro, elegendo os seus representantes. O Estado deve responder ao cidadão procurando cuidar do bem comum e operar nos casos extremos ou que ataquem o bem comum. Mas o Estado não pode regular a vida interna de cada um. Esse foi precisamente o erro (e é) de uma acção de uma certa Igreja, que procura incessantemente colocar-se no centro da única coisa em que não deve colocar-se: na relação do Homem com Deus. Ambas as regulações têm resultados negativíssimos: quebram a relação de confiança reguladora entre sujeito e instituição. Ambas excedem os dois campos onde podem agir, ética no primeiro, moral na segunda.
Volto a dizer: a independência do Homem como conceito, a identidade, foi a mais custosa conquista civilizacional do Ocidente. No momento onde todos os avanços, da ciência à técnica, progridem num bem-estar para o ser humano sem precedentes; onde o conhecimento está mais perto de todos como nunca, atitudes reguladoras como esta fazem prever o pior. Há uma treva nos conceitos.
E isso é mais grave do que não poder fumar o meu cigarro dentro do meu próprio lugar de trabalho.

Comentários

Anónimo disse…
o melhor texto que li sobre esta matéria. uma densa treva, de facto.

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