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CENTRALISMO DOENTIO


Foi notícia, hoje, a morte de uma idosa na maca de um Hospital. Tinha vindo de longe para umas urgências agora superlotadas, pelo fecho de outras, e esteve quatro horas numa maca a aguardar tratamento.
O fecho de hospitais por todo o país devia ser a maior ocasião de escândalo desde as políticas arbitrárias do Estado Novo. Não exagero: estamos no mesmo nível de rasura básica dos direitos dos cidadãos. A saúde é um direito de todos, num Estado democrático. Os impostos pesadíssimos deste país (um dos que têm a maior carga fiscal da Europa Comum) não justificam esta política de fecho indiscriminado de hospitais. Perguntem aos portugueses de 1640 como se sentiriam de ter de ir um filho a Espanha.
Gostaria de ver o Senhor Ministro e a sua equipa a viverem numa aldeia do interior: e a terem de fazer, sem meios, viagens enormes para uma espera sem limites num hospital estranho. Bastaria uma dor de cabeça, ou vá lá, uma gastroentrite.
Outra questão é a política do Estado para o interior do país: quem visse de fora pensaria que o que se pretenderia era uma desertificação do interior. Populações inteiras em aldeias mínimas serão obrigadas a distâncias de largas dezenas de quilómetros. Que vontade terão os poucos jovens e crianças que ainda lá vivem de lá permanecerem?
Um centralismo doentio: é esta a política? Poupa-se com a morte de outros? Os resultados estão à vista.
Perguntem aos portugueses: querem um buraco no Serviço Nacional de Saúde, ou não ter apoio básico de saúde? A resposta está à vista.
É claro que o déficit foi tão natural a Portugal como a vizinhança de Espanha ou do mar. A conquista de Ceuta, primeiro passo para a expansão, foi por isso: falta. Portugal vive na falta. Os quinhentos e cinquenta anos seguintes foram à custa de exteriores. Mas estamos hoje precisamente como estávamos em 1415: fechados neste rectângulo e a necessitar de receitas para equilibrar as contas. Para onde vamos?
Não vamos a lado nenhum se nos rasurarmos a nós próprios desta forma.
Os princípios básicos de um Estado de Direito, a igualdade de oportunidades e de condições, está moribundo. Um centralismo contabilístico é o culpado. Quando é que contas, senhores ministros socialistas, são mais importantes que vidas?

Comentários

Pé do André disse…
Caro Pedro e restantes de olhos postos no mar egeu,

Gosto tanto deste blog que só me apetece aperta-lo como as meninas fazem aos ursinhos de pelúcia!

A este post apenas acrescento uma pergunta. Até quando nos vamos deixar enganar pela ideia que o PS é um partido de esquerda com ideais socialistas? Desde há quanto tempo que não o são, quer na acção quer no discurso?

O Partido Socialista devia obviamente mudar de nome.
Mas todos aqueles que como eu, votam, deviam também ponderar se a escolha que fazem pende apenas da esquerda para a direita. pois se assim é andam a votar enganados. Tanto ao PS como PSD parece-me que esse centralismo de que falas lhes assenta muito bem, como óbvios partidos de tendência autoritária.
Estive a dar uma vista de olhos pelo blog e, sem dúvida, dá vontade de o arrancar do mundo virtual e espetá-lo numa bandeira, bem em frente da NOSSA Assembleia da República.
Vivemos hoje dias muito turbulentos, de um egoísmo a toda a prova, não é só o sector da saúde que me repugna, é a educação, é a segurança, é em todo o lado. Ainda ontem, num dos noticiários da nossa televisão, estava o Senhor Ministro da Saúde, muito empompado, a choramingar injustiça para com o seu excelente trabalho, a mostrar uma balofa indignação perante os comentários injustiçados do povo e do jornalista que o interrogava. E é assim de todas as vezes que são confrontados com a mediocridade em que tentam enfiar o nosso país, colocam desmascaradas máscaras de bons samaritanos, tentando fazer com que nos sintamos culpados por andarmos a ser comidos pelo nosso próprio Governo, que engorda a olhos vistos.
Mas o mais triste é ver que, perante todo este cenário, a única capacidade de luta e indignação do Povo se prende com questões futebolísticas e afins. Podemos continuar na mesma situação que em 1415, mas só no plano social e político, porque creio que o Povo Português, há muito, perdeu a capacidade de lutar por um mundo melhor.
Pelo menos ainda podemos falar abertamente sobre o assunto, mas isso, até quando?

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