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Mensagens

A mostrar mensagens de 2008

NO PONTO ONDE AS COISAS SE DESCAMINHAM

Não há coisa mais irritantemente burocrática do que o fim do ano. E porque é que convencionaram que o fim do ano era em Dezembro? Porque é que o fim do ano não é em Setembro, quando voltamos das férias; assim se uniria o descanso com o desejo de recomeçar, e descanso e desejo vão bem juntos, como nas voltas da cama. Não, tem de ser em Dezembro, e tem de ter vestidos pretos e saltos altos e passas e champagne e fogo de artificio na Madeira e toda uma parafernália pirosa, plástica, rimelenta, superficial-positiva, burguesa e com dores de barriga na alma. A passagem de ano é tão irritante que até tem que ter a palavra francesa mais estúpida do dicionário gaulês: Réveillon. As palavras francesas são todas bonitas e saucy, mas esta, que vem de Reveiller, de levantar, de ressurgir, ficou plastificada como uma nossa senhora numa loja de chineses, e cheira a irritações nos dentes. E depois todo aquele frenesim de contar os minutos, como se pudéssemos perder um barco qualquer que é contado na te…

O MEU SÃO PAULO

Estamos no Ano Paulino, em que supostamente se comemoram os 2000 anos de nascimento do santo. E eu não posso com o tipo.
Ele é uma espécie de “Pai dos Crentes”: enquanto a malta dos Doze apóstolos e das mulheres acreditaram porque viram, ele, que não conheceu Cristo, teve um “surto” na estrada de Damasco – e passou a crer. até aqui tudo bem: a estrada de Damasco inclui o mosaico sempre inacreditável de todos aqueles que passam a acreditar (e num Deus múltiplo, portanto pessoal) depois de uma crise, um clarão, de uma falta – são os mais frequentes e os mais felizes.
Mas depois nem todo aquele epistolário se aguenta, cheio de recomendações e proibições, ferozmente machista, misógino, homofóbico e ultramontano. Tudo certo, relativizo: Deus fala aos homens por profetas, livros-vivos, que trazem consigo muita areia própria, muito horizonte de expectativa dos destinatários da mensagem, muito ar do tempo: se eu fosse respeitar o que diz o Levítico, teria de apedrejar o meu pai que trabalha ao…

DA GRÉCIA PARA DOW JONES

A revolta dos estudantes na Grécia dura há mais de uma semana. Os jornais apontam que muito em breve o descontentamento poderá alastrar a outras capitais da Europa. É interessante que o registam como um surto, como uma espécie de epidemia que, qual gripe das aves, pode aparecer, preparando a polícia para limpar os escudos de plastiglass e renovar o stock de gás lacrimogénio (que, já agora, está nos limites na Grécia...). Ainda não perceberam, senhores banqueiros? Ainda não perceberam, senhores Governos? A geração antes da minha, desmotivada por tudo e abebezada por vinte anos de crescimento económico, que não sabe outra coisa senão computadores, ipods, conhecimento googlico, está a movimentar-se pelo futuro. Isso enche-me de orgulho (tirando naturalmente a morte de um estudante, que mostra a estupidez policial) e diz-me que não estamos estupidificados. A geração "600 euros", que acaba cursos e sabe que o destino é um estágio para nada, ou ser sustento ao telefone de cartões …

A CANÇÃO DE EMBALAR A PRÓPRIA INFÂNCIA

Este disco não é um disco qualquer.
É o Mozart perfeito. Friedrich Gulda, que o interpreta, é um pianista invulgar, que começou classicamente e incorporou as suas experiências de jazz e uma visão particular do mundo à forma como interpretava: um excelente Cravo Bem Temperado de Bach (Philips) já o revelava. Estas gravações (dois álbuns de 2 cd) foram editadas a partir de cassetes (daí as "Mozart Tapes") e são impressionantes. Tudo soa certo, e desfere-nos como um relâmpago.
Como um relâmpago de evidência: todas as opções de Gulda são simples, musicais, cuidadosas e originais, claríssimas. Como um relâmpago de emoção: os adagios parecem suspensos no tempo, como se Mozart cantasse estas melodias simplicíssimas para embalar a própria infância (ouvir o Adagio da sonata K. 570). Como um relâmpago de ritmo: podemos ouvir as experiências de jazz de Gulda a fazer avançar os allegro e a revisitar o clássico de forma livre.
Mas sobretudo, é a humanidade de Mozart que salta: como se algué…

Jardins para o fim dos tempos

A minha integral das Sinfonias de Beethoven
A MAL-AMADA - A Quarta Sinfonia de Beethoven

É como a paixão que tivemos, depois do primeiro amor e antes das relações sérias: devemos-lhe muito, aprendemos muito (ou nem por isso), está a meio do nosso percurso como uma tabuleta ou um mapa, mas não a contamos entre os nossos grandes afectos de vida. Ou como o livro que se escreveu entre dois fogos, onde mais subimos dentro de nós mesmos do que produzimos alguma coisa de novo (o que eu costumo chamar os livros-oficina; todos os escritores têm um ou vários; há alguns, até, que nunca parecem ter saído disso). É a mesma coisa com a Quarta Sinfonia de Beethoven.
Entre a Eroica e a célebre Quinta; fechando portas que vinham directamente do classicismo, incorporando a fúria da ideia que traz tanto já de Romantismo. Por isso, é uma Sinfonia mal-amada. Há até o célebre mito de que Beethoven não funciona nas sinfonias pares, o que não é verdade (a Segunda e a Pastoral, e mesmo a Oitava, negam-no).
Devo d…

RETIRO DE ESCRITA

Passei três dias e meio em Serpa com alunos da Companhia do Eu, que dirijo há quatro anos. Estivémos na Casa de Serpa, graças à parceria que estabelecemos com os incríveis Sílvia e Miguel, donos e almas da casa. Estiveram o Jaime, a Ana Oliveira, a Ana Catarina, a Teresa Lopes, a Susana, a Patrícia e a Filipa.
O mais impressionante destes dias não foi a chuva, nem o frio, nem as refeições extraordinárias. Foi sentir que, entre oito pessoas tão diferentes, que tão pouca coisa unia, um espírito de procura e de pesquisa se tornou uma espécie de casa comum. E que a partilha é possível, com os projectos de livro ou de contos de cada um a serem de facto preocupação de todos, dividido por todos, acompanhado e gerido.
A sensação que tive é que as barreiras que nós próprios a nós próprios colocamos (bloqueios de escrita, representação de si próprio, medos, receios, fugas) caem quando somos imaginações juntas a perguntar-se; quando somos o caminho um dos outros. Todas as pessoas podem comunicar, …

QUOTIDIANO INTERIOR, II

Dmitri Shostakovich dizia que as suas Sinfonias eram túmulos.

Não sei se muitos criadores podem dizer isso hoje sobre as suas obras de arte: que a experiência de um percurso interior, Jacob e o Anjo, é a força que vive na sua produção artística. Que é o resultado de biografia perguntada, triturada, assombrada. O resultado de uma procura em que os acontecimentos, abismos por um lado, e a sua obra de arte, espelho por outro, são os dois lados da vida.
Acredito no artista pesquisador dentro de si mesmo. Não a um excesso onde tudo o que seja apenas a sua experiência valha, mas num turbilhão de perguntar-se perante o mundo e os astros, de perceber o sentido de cada instante consigo e no mundo. É isto que Fausto, tarde demais, percebeu, e por isso gritou: “Não fujas, breve instante”.
Estou farto da poesia exterior, farto de romances-proezas-de-estilo-pessoal, da obra de arte que serve o ego e não o põe em causa. Estou farto porque quero aquela obra de arte onde posso morar sem ter paz, em que…

«PROCURA DEUS OU O DIABO?»

Tive há dias um encontro dentro dos poemas de José Régio.
Estava na Biblioteca Pública Municipal do Porto na minha investigação sobre mulheres escritoras 1500-1800. Tinha ido pôr mais um prego nos pulmões e atravessava o claustro, agora cheio de reproduções de imagens medievais, que tapavam as paredes de vidro que protegem o jardim interior. E nisto apareceu-me um homem, careca, óculos, com um ar antigo. Do nada, perguntou-me:
«E o senhor, o que é que vem procurar aqui? Deus ou o Diabo?»
Se não fosse o tom regiano, eu jurava que sorriria e não responderia. Mas qualquer corda me tocou, e respondi-lhe logo:
«Nem um nem outro, mas tudo o que está no meio».
Levantou o dedo em riste e eu imaginava já, à Régio, as paredes medievais a moverem-se com dragões a saírem das bocas dos profetas, o claustro a jorrar sangue, novas revelações em movimento, com os céus em marcha e as nuvens a ribombarem o futuro do céu. Mas não.
«Isso é uma boa resposta. Uma resposta inteligente. É que o que está no meio é …

QUOTIDIANO INTERIOR, I

Daniel Mendelssohn assina um excelente artigo sobre Kavafis no último número da “New York Review of Books”. Para além de um percurso biográfico e da gestação e publicação das suas obras (pouco mais de uma centena de poemas), cuidadosamente explanado, há uma afirmação extraordinária: «The “real” life of the poet was, in fact, almost completely interior.»
Desde há anos, quando comecei a publicar, que esta questão para mim é a mais clara na missão de escrever: o quotidiano de um poeta é interior. É no processo de uma ideia, na luta entre Jacob e o Anjo, seja ele Deus, o real ou uma concepção do mundo, do corpo, ou da poesia, que se faz a matéria de que o poema é apenas o resultado. Não acredito em poesia que não nasça de um combate interior: não tem forçosamente de obedecer a isso, de ser sobre isso, mas essa luta está-lhe na base, como construção permanente de um edifício.
Considerar que a poesia deva ser só sobre a luta interior seria reduzir o seu papel na arquitectura do mundo. A poesi…

JARDIM PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

A TERCEIRA ("HEROICA") DE BEETHOVEN

Já passaram alguns meses desde as duas primeiras sinfonias de Beethoven, mas foi precisamente por há alguns dias atrás estar precisadíssimo de um furacão dos ouvidos para o coração que fui buscar a minha versão preferida da "Eroica". Cá segue a minha partilha.

Esta Sinfonia contém a dedicatória rasgada mais célebre do mundo: a que Beethoven dedicou a Napoleão, pensando-o um libertador; e rasgou-a quando percebeu a que sonhos de grandeza vinha o pequenote corso. É impossível ouvi-la sem a paixão da dedicatória, antes e depois.

Passei boa parte da minha adolescência a devorar livros de História no Verão ao som desta música. Mais tarde aprendi-lhe mais do que banda sonora para grandes sonhos humanos de liberdade truncada. Daqui nasceu um conto do meu livro de contos, Museu de História Sobrenatural, "Márcia Fúnebre", onde uma personagem feita de morte nasce e morre às mãos dos homens.…

A OUTRA VIDA DO CORPO

E numa manhã uma nebulosa ocupa o corpo.
Já não nos lembrávamos que era assim: de repente parece que somos levados, puxados, transferidos para fora de nós. E a nebulosa ganha, fica no nosso lugar; parece governar o corpo em movimentos diferentes, pesados. Sentem-se os seus passos em espaços do corpo que pareciam esquecidos. A febre vem, faz-nos sentir que não dominamos nada. E a nebulosa instala-se, corpo leve de vertigem, voz de tosse, gestos custosos, e uma relativa indisposição com o mundo.
Estive doente. Uma amigdalite, nada de grave. Mas as longas tardes em que se olha para o tecto, em que é preciso esconder do frio, e se sente o fervilhar dos micróbios a pintar as paredes da cabeça. Essas longas tardes, como na infância, em que nos sentimos estranhamente em contacto connosco próprios, com qualquer coisa de prévio a nós mesmos, como a criança ou o moribundo vigiados com algum cuidado e uma certa vizinhança do horror.
É como se a infância e a adolescência tivessem tido nas doenças um…

UMA OPORTUNIDADE PERDIDA

Quando o mundo se prepara para o que deve ser já a melhor notícia do século XXI – o fim do mandato de George W. Bush – chega o biopic de Oliver Stone. Não deixa de aparecer num timing semelhante ao brilhante Farenheit 9/11, que deitou por terra, pelo mundo, a fachada colada a cuspo (e a medo pós 9/11) do primeiro mandato de Bush. Mas este filme não tem nada de comparável com o filme de Moore, por nem ser um documentário, mas um filme-biografia, e por a intenção firme do outro aqui ser uma orquestra desafinada e sem maestro.
Há uma coisa em George W. Bush que sempre me maravilhou: há nele uma finíssima, estreitíssima linha entre o atrasado mental e o comboy série III. Onde acaba um lado e se inicia o outro, qual Bojador por onde passam todas as nossas angústias. Em Bush há uma maravilha antropológica, psicológica, direi mesmo darwiniana, em que podemos dizer: ele é 90% de macaco e 10% de humano. E o mais maravilhoso ainda é que tudo aquilo parece de geração espontânea, porque por mais q…

sócrates é o timoneiro e magalhães o seu profeta

É vê-los, remadores em acções de formação, felizes e cantarolantes: lá vão, cantando e rindo, levados, levados sim por aquela máquina que não é da regisconta mas muito mais além; até tem nome de explorador e pode dar a volta ao mundo por sinonímia.
Conhecem o facto: os capitães de formação nas escolas, que apontam aos professores o mapa para o novo mundo escolar que é o magalhães, incentivam os professores a fazer pequenas cantigas para serem usadas nas aulas; isto sem falar nas acções de formação, que em vez de trabalharem conscientemente o impacto do computador no fim da cultura escrita, com as suas potencialidades e problemas, decidem cantigar.
Tudo isto cheira bastante a mocidades antigas, mas em vez da família e da bandeira temos agora o computadorzinho azul. Que vai, de uma vez, atirar-nos para a escala mais alta da e-literacia na Europa.
A nós, que temos dos programas com menos estudo de literatura no ensino obrigatório. Que fazemos os alunos lerem compêndios inteiros cheios de má…

O MUNDO EM 4 GIGAS

Mínimos quadrados com mais pequenas setinhas. Milhares. O peso da decisão. «Não vai caber, não vai». Decide-se.
«O seu Ipod não tem espaço para todas as músicas seleccionadas.»
De novo, de A para o Z. Mais caixinhas. Dolorosamente o cursor em cima das caixinhas. A decisão é inquisitorial. Como, como é que eu vou passar sem aquela música? Parece que se exclui para sempre, da história, do universo. Vá lá. Carrega-se. Respira-se fundo. Pensa-se como é que vai ser, atravessar um dia, dois dias, estradas de pensamentos, rostos, sem aquela música. Excluída. Tenta-se, respira-se outra vez. A respiração mesma guia o cursor, carrega-se. Já está.
Uma e outra e outra vez. A sensação de perda ocupa todas as caixinhas.
«O seu Ipod não tem espaço para todas as músicas seleccionadas.»
E agora? O que tiro? São duas da manhã. Não cabem as músicas que acabei de passar. O CD novo, a faixa comprada ao site da Deutsche Grammophon. Não.
Volta-se atrás, ao que se habitou. Uma vez, outra. Não, não cabe. «A ciência…

E A RÚSSIA NÃO VOLTOU

Parecia mesmo adivinha depois do "post" anterior: depois do facto do encerramento do Museu de Arte Popular, agora a notícia da suspensão da exposição do Hermitage; e a provável suspensão da parceria que nos custou €1,5 milhões (Não comento já o legado cultural dos responsáveis prévios do Ministério, porque a herança canta por si). Claro que a Direcção do Museu russo terá as suas questões e culpas: mas também referiu insistentemente a falta de dinheiro que em Portugal impedia tudo e qualquer coisa. Não sei o argumento que usou para Inglaterra, já que também tem lá uma parceria que parece correr mal. Um milhão e meio para trazer para Portugal belíssimos quadros, muitos deles cópias, e o contacto com os nossos antípodas na Europa. A ideia não é má e até revela uma vontade de estabelecer parcerias diferentes em termos de exposições. Mas pensemos: quantos frequentadores de exposições em Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Funchal,... viram já os quadros do Museu Grão Vasco? Quantos conhe…

ERA UMA VEZ UM MUSEU

«A história da administração pública em Portugal confunde-se com a dos manicómios.» Quem o diz, dos finais do século XIX, é Alberto Pimentel. É uma frase de tal forma lapidar (milhares de portugueses sentem precisamente o seu peso – de lápide – todos os dias), de tal forma rasgada na pedra da clareza, que devia estar exposta, ao lado do livro de reclamações, em todas as repartições públicas. Não ao lado do livro de reclamações: na capa!
Pois a história real que contarei a seguir só poderia começar com esta epígrafe.
Em 2005-6, a então Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima (de quem prezo muitíssimo o seu trabalho académico e ensaístico) teve o acto inesquecível de mandar encerrar o Museu de Arte Popular. Tive o gosto de, com um velho amigo, Rui Santos, começarmos uma petição pedindo explicação para o fim do mesmo, e o que aconteceria com a sua colecção. Era o último edifício completo no interior e exterior da Exposição de 1940. A sua colecção era o último elo com uma época (bastante …

A NOSSA NECESSIDADE DE INÍCIOS É IMPOSSÍVEL DE SATISFAZER

Graças a uma edição em DVD aumentada, com cenas (por vezes excelentes) cortadas do filme original, passei estes dias de férias a rever (ou a trever) a trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson a partir de Tolkien.
Mais do que o filme, um épico que ombreia, em dimensões e origem, Os Dez Mandamentos, e que se revê com um prazer incrível como objecto e como jogo de camadas simbólicas inquietante, o que mais me pergunta é a nossa necessidade, como civilização ocidental, de encontrarmos narrativas da origem, cosmogonias, neste momento. A ciência tinha acabado de inventar a sua, o Big Bang, depois de séculos onde Adão e Eva, ou mais recentemente a Teoria da Evolução tinham ocupado lugar. Mas neste momento somos soterrados de novos inícios, como O Senhor dos Anéis, e Narnia, e agora A Bússula Dourada. A grande maioria destas cosmogonias foram escritas há dezenas de anos, nas cinzas das Guerras Mundiais ou da Guerra Fria, é certo; mas é sobretudo a falência de modelos anteriores, de um iní…

A CRISE DOS COMBUSTÍVEIS

«(…) Que é um caso nunca visto
Para as velhas do meu beco.

Já os gaiatos
usam palmas e sapatos
e tacões dos mais baratos
mas com a tromba à papo-seco”
Estes versos de uma revista de 1940-1950, recitavam-nos os meus avós contando o efeito que uma lei do Estado Novo, obrigando todos os cidadãos a não andar descalços, teve na época.
Passaram pouco mais de cinquenta anos. E agora tacões e palmas e sapatos foram esquecidos; e passámos depressa para os carros, carrinhos e carrões. Parece que ter um carro era tão obrigatório e necessário como calçar sapatos há cinquenta anos. Gerações inteiras que viveram descalças foram redimidas pelos seus sucessores com o uso de carros. O problema é outro, e a crise dos combustíveis só veio revelar uma ferida anterior: que o nosso uso de transportes públicos, a partir de agora urgente, está associado na psique de muitas pessoas, de boa parte da cultura nacional, a um uso de pobre.
Afirmava e bem Miguel Gaspar na sua crónica de hoje do “Público” que terminou a ida…

SÓCRATES-CROMWELL OU SÓCRATES-LUÍS XIV?

O primeiro-ministro fumou vários cigarros, cortinadamente secretos, num voo fretado pelo governo, em viagem oficial. Não só o primeiro-ministro, mas o seu ministro da Economia, que é afinal o ministro que tutela a ASAE.
O desconhecimento da lei pelo primeiro-ministro fica descortinado pela cortina; afinal fumou às escondidas por pudor, por fuga à lei, ou pela conversa, num conversativo e secreto cigarro? A cortina descortina saber que não devia fazer o que fez.
É impressionante e revelador por si que um primeiro-ministro que se tem revelado implacável numa série de medidas (que podem ser discutíveis, mas cujo zelo é louvável por si), aguentando o Torquemada Nunes e as suas acções, entre outras políticas, deixe abalar a sua imagem. Já lá iremos. Mas antes vamos à curiosa afirmação de que «lamenta a polémica»: uma polémica não se lamenta. Pode lamentar que o seu acto tenha gerado tal polémica. Mas o que o primeiro-ministro lamenta é que o seu acto tenha revelado a posição insustentável de…

Jardins para o fim dos tempos

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

SINFONIA Nº2


Aqui o ritmo impera, fulgurante, entre encontro e acção, pensamento e decisão. Mesmo no Adagio, ou no Scherzo, há ideias impetuosas, um fogo que incendeia já uma linguagem – para chegar aonde existência e substância coexistem.
Esta Sinfonia é o ensaio de cores de Beethoven. Dinâmicas, melodias, romper e renovar a face: tudo se estuda aqui de uma forma nova.
Há uma teoria antiga, recorrente, de que Beethoven era melhor nas sinfonias ímpares que nas pares. Isso é discutível, embora a Segunda ensaie a afirmação imparável da Terceira, e a Oitava seja o gérmen da Nona. Um grande maestro, George Szell, defendia mesmo que as duas deviam ser ouvidas em conjunto.
Começa-se pelo Adagio e já não há o tentame da primeira sinfonia, a névoa, a desenhar-se: começa-se com um ritmo marcado por metais e tímbales, onde as cordas parecem desenhar arcos de velocidade. É uma fanfarra de ideias. O Adagio é uma brincadeira de delicadeza e súbitos volte-face…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

A minha integral das Sinfonias de Beethoven

Então perguntarão: com tanto mal a passar-se no mundo, o homem só fala de música?
É precisamente porque me aguento com dois pés na música que o mundo é respirável.
Na resposta ao post anterior, sobre o inenarrável Senhor K., um amigo perguntou-me: “Tanta verve contra o homem, e diz-me lá se és capaz de propor uma integral de Beethoven sem contar com o homem.”
Aqui fica o desafio. Em fascículos, sublinhados que é um amador, inveterado mas amador, apoiado (ou ensurdecido?) por dias de escuta, que fala.

SINFONIA Nº 1
Não foi aqui que aprendi Beethoven, onde teoricamente ele começou. Foi pelos Concertos, sobretudo o de Violino, por Menuhin e Furtwängler, e pelos de Piano.
Começa por formar-se (como) um nevoeiro, soprado por metais. Qualquer coisa que parece ainda suave e melódica, capaz de oscilar entre a rapidez e imprevisto de Haydn na melodia envolvente, calorosa, que corta as sombras, e alguma coisa de sombra que parece não querer dissipar-se, por…

O SENHOR K.

Assim se referia Wilhelm Furtwängler a Herbert von Karajan – maestro de que se comemora o centenário.
Devo começar por dizer que esta será uma nota pessoal, profundamente pessoal. Eu não gosto, não suporto, não aguento, não considero, não integro, não sou capaz de, não engulo, não digiro, não tolero, não quero nada interpretado pelo senhor K.
Não é que não encontre, nas versões que me foram recomendadas e que conscienciosamente ouvi, um som potente em Wagner, ou o acompanhamento miraculoso de Dinu Lipatti no Concerto 21 de Mozart; mas isso seria negar ao homem que fosse músico, sequer. Tocar com o mais genial pianista do século XX e não saber ouvi-lo seria dizer de uma vez por todas que o homem era um tocador de pratos da Banda Filarmónica de Azeites de Cima. Mas não ouvi, nunca, uma visão renovadora de uma obra. Não há o entusiasmo rítmico e corálico de uma interpretação de Toscanini; o profundo sofrimento de uma leitura de Furtwängler; o granitismo em movimento de Klemperer; as várias…

BOSTON LEGAL

Não há dúvida que as séries vieram revolucionar a relação com a televisão. Mas sobretudo a nossa relação com o enredo e a narrativa. Num grande filme, em tempo e situação limitada, o jogo de história, conflito de personagem, sentido, lutava-se caro e em génio. Muitas excelentes ideias ficavam no limite pela rapidez e limitação dos meios. Hoje, com a duração que uma série pode ter, personagens, conflitos e narrativas podem demorar-se, criando estados e situações complexas que um filme não ousava conter, ou tinha a possibilidade de sugerir. Esse trabalho revela sobretudo prodigiosos enredos (o caso das boas temporadas de “24”), sugestões apocalípticas e de uma invisível mas permanente luta entre bem e mal (“Carnivale”), retrato de tipos (a primeira temporada de “Donas de Casa Desesperadas”).
“Boston Legal” é um dos casos onde o formato série traz resultados longos e inesperados. Um primeiro contacto com a série parecerá que se trata de um espectáculo superficial, até plástico, com estrel…

NO TIBETE MORRO EU E MUITO MAIS DO QUE EU

No Tibete hoje estão em causa mais do que autonomia ou independência; estão a ser violadas liberdades mais do que fundamentais, como o direito à religião ou à expressão; estão a morrer mais do que tibetanos.
No Tibete, onde passará a chama olímpica que representa um Ocidente que teve como útero o Mediterrâneo, o igualitário mar sem marés, o mar da liberdade do espírito, de tantas rotas de diferenças aproximadas, está a morrer o próprio Ocidente. Incapazes que somos de velar pela liberdade no mundo, incapazes que somos de preservar a autonomia cultural de uma das religiões mais antigas do mundo; incapazes que somos de velar pela independência do espírito e pela expressão das liberdades individuais, mas ainda mais do que isso, das liberdades de um povo.
Peço desculpa do que vou dizer a seguir, mas a chama olímpica, a revolução francesa, centenas de pensadores e poetas que estão sob os nossos pés e os nossos sangues de Europeus múltiplos e únicos, não mo deixam calar: o que se passa no Tib…

TRÍPTICO: III

A morte não existe mais. Um homem só na cruz matou a morte.
Nunca mais as coisas terminam; nunca mais o limite se impõe sobre ombros, páginas e paisagens, sobre ideias, desejos e concretizações. Tudo pesa o infinito.
Existiremos todos inteiros e definitivos depois do terceiro dia. Com a dimensão certa e verdadeira de luz.
Hoje nunca mais acabaremos.
Hoje a morte morreu: é isso a Ressurreição.

TRÍPTICO: II

nada sobrevive. nem a lembrança do que fomos para além de nós. nem a memória, breve rio sem reflexo, guarda o percurso de uma vida, e menos ainda o seu significado.
hoje é o dia em que o fim revela o fim. em que um homem de braços rasgados às ordens de um Império e à conjura de políticos religiosos revela o fim. nada há para além da Terra, acima dos dias, por dentro das horas, para além dos gestos. hoje o limite foi revelado, o limite morreu.
e se fosse realmente assim, este conjunto de dias desconexos, breves, por vezes brandos, por vezes ásperos. esta sucessão de todas as promessas de ser inteiramente, mas roubadas num golpe?
e se o próprio chão que pisamos fosse o último? aquele chão que vamos ser, com a própria história dos nossos ossos?

acordava dias sucessivos com o ruído de uma explosão. talvez fosse a adolescência a despedir-se, o fim de um mundo onde tudo parecia ser possível ao corpo do coração.
mas sucessiva a Terra a desmembrar-se, arrastando o jogo dos dias consigo; todos os l…

TRÍPTICO: I

não é a cruz. não é a morte. círculos parados, esperanças gastas de vazias, falsos deuses, mudanças erradas. não.
nem o símbolo que trouxe paz mas tantos abusos e colisões – não o símbolo, mas o que dele fizeram.
pode salvar-se um símbolo, se o que o sustenta foi abafado em séculos de apropriações? um novo significado da história de Cristo, dessa narrativa que enovela em luz grandezas e pequenezes dos Homens e de Deus, implica um novo símbolo?
para mim a cruz significa dois séculos de bruma. entrecortada de clarões. porque significa o corpo morto, sexta-feira santa, “meu Deus porque me abandonaste” pela história do Homem fora. ao olhar para a cruz, o Homem depara-se sempre com o sacrifício, mas não com o seu fim último; com a morte, até com a vitória da dúvida, com a devastação daquele sacrifício. mas há sacrifícios humanos maiores do que o de Cristo: o Holocausto, hoje o Tibete, os biliões mortos em guerras desde o início dos tempos.
não, não é a cruz que importa: é a luz que vem depois.…

OS EXCLUÍDOS E O SOLDADO

A tríade que agora se defronta nas eleições americanas representa os três estados do país. McCain é o herói do Vietname, da geração que perdeu uma guerra e muitos sonhos, pragmático nas recusas; uma geração que viveu todos os excessos e todos os contrários (tão interessante como a que sobreviveu à 1ª Guerra, a de Churchill: para ambos tudo estava por fazer, e tudo já se tinha perdido).
Hillary: a quota feminina, embora por um outro lado: pela mulher que não encontra no seu estatuto de mulher a sua força, mas que quer essa autonomia do feminino pela imitação do masculino. Mas não há dúvida que gerações de mulheres-casa, e de mulheres vencedoras nas suas carreiras se encontram nela. Há, sim, nela, um passado fascinante e pouco conhecido, que as biografias recentes mostraram: há 30 anos, esta advogada recém-formada estava no Texas, estado que agora ganhou, literalmente a perseguir os imigrantes mexicanos recém-legais e ilegais para lhes dar plena cidadania e os levar a votar. Nenhum Presi…

O QUE É O DESERTO?

Pergunto-me muitas vezes o que significa estar hoje quarenta dias no deserto. Não tanto estar quarenta dias a pé no meio do deserto, mas estar quarenta dias na mais absoluta solidão, sem procurar encontrar nada.
Penso hoje que não há maior desafio para o homem, em todos os tempos. O deserto é a solidão de tudo mas sobretudo a solidão de si. Um quase viver sem a personalidade.
Nestes dias antes da Páscoa penso na impossibilidade de tudo isto: de como nos é impossível sair dos dias, das suas gestões microscópicas, de nós mesmos desaparecer. Penso no significado de Cristo no deserto, de Buda a atravessar distâncias, de Maomé na solidão. Penso que todos os mestres se forjaram num silêncio que os homens não sabem compreender. Que nascemos, civilizações inteiras, de um silêncio que é o berço de tudo o que é mais positivo e nosso: e que não sabemos abarcar.
Triste mundo aquele que é um deserto, sim: mas não o lugar fustigante de silêncio e abandono, mas onde nos perdemos, quotidianamente, de nó…

O CRIME DA EMPREGADA DE VIANA

- O senhor para nós é um suspeito. É como se fosse suspeito de ter morto alguém. Agora tem de nos provar a sua inocência.

Era um dia solarengo de Junho. A cidade cheirava bem e tudo me parecia solar e perfeito, enquanto descia a Rua da Arrábida, carregado de coisas para a minha nova casa.
Rodei a chave com aquela satisfação da novidade e a emoção da descoberta. E lá dentro: carta das finanças. «Ora cá está a melhor maneira de começar!», pensei para mim. Mas o que lá estava dentro era ainda bem melhor do que um bom início: declaração para apresentar com urgência o modelo 10 do IRS.
Após chamada bombeirica para o meu amigo Miguel, o salvador dos impostos da família e arredores, fiquei a saber que deveria ter uma empregada; e que não só tinha, como ela tinha declarado rendimentos em meu nome. Como nenhuma das duas questões se verificava, o panorama de uma manhã nas finanças nublou o panorama de novidade.
À chegada à repartição, um corredor de expectantes com máquinas de senhas e um écran de …

A LINHA INVISÍVEL

«O medo é como a repulsa do feio, do fecal, do incestuoso, do impuro e proibido, de tudo o que a razão (que é a Sociedade interiorizada) nos ensina e habitua a condenar e a reprimir em nome do belo, do são, do puro, do respeitável, do sujo, do útil ou do conveniente, erguidos em regras de conduta, mandamentos ou finalidades» (José Rodrigues Miguéis, «O Breakdown»).
Ando há semanas numa felicidade incrível a ler Rodrigues Miguéis de fio a pavio: o que conhecia e o que não conhecia. Isso só é possível graças à Byblos, onde encontro livros que nem na Feira do Livro, em dias de sorte. É dele a frase de um homem torturado por si mesmo, entre os limites da compreensão e da auto-perseguição, desesperado por encontrar a linha por onde se governa e onde se separa a imposição exterior, a regra, a norma.
Os instrumentos de pressão são mais dúbios, mais eficazes: hoje, vão retirando não a liberdade, mas a participação no todo. Ironia final de uma Europa social: de um capitalismo que acabou por torn…

ESCRITA EMPENHADA, HOJE

Cada vez que oiço uma gravação de Pablo Casals, célebre violoncelista catalão do século XX, penso nisto; penso num homem ferozmente anti-franquista que se instalou em Prades, na fronteira francesa com a Espanha, e aí dirigia um festival; ferozmente contra a fronteira da opressão, fazia música. E fazia-o cantando. Era ele que dizia aos seus alunos que quando o tema de uma peça chegasse, o violoncelista devia cantar. É mais um rugido, directamente do coração da música, da própria liberdade, contra as muralhas da opressão.
Quando penso no que é pedido a um artista hoje, não é decerto que se empenhe em nenhum dos temas porque lutámos nos últimos cem anos: nem o feminismo, nem os direitos das minorias étnicas, nem os direitos das minorias sexuais. estes estão incluídos na nossa voz e devem ser recordados. mas o grande combate hoje parece-me ser pela grande ideia perdida do Ocidente: a identidade.
nas margens do correcto, do comportamento higiénico e trendy, do capitalismo devorante, um artis…

PORTUGAL INVADIDO PELOS BÁRBAROS

Lisboa, 2 de Fevereiro de 2057
Entre 2004 e 2008 Portugal, que desde 1974 vinha conhecendo um ritmo pronunciado de desenvolvimento cultural sem precedentes, sofreu uma invasão silenciosa mas metódica que destruiu de todas as suas conquistas de desenvolvimento cultural. Um novo modelo de desenvolvimento, diziam ao momento os seus responsáveis políticos, foi responsável pela destruição do seu tecido cultural, e da própria noção de estado europeu e civilizado. Essa destruição, uma invasão de políticos bárbaros, em tudo se pode comparar às invasões bárbaras que destruiram o Império Romano. Essa acção, metódica e silenciosa e teoricamente em proveito de um bem comum, estendeu-se a todas as áreas.
1. O país foi privado de um serviço nacional de saúde igualitário e próximo do cidadão. Numerosas urgências de hospitais e centros de saúde encerraram. Foram conhecidas, desde 2007 até aos dias de hoje, as centenas de mortos dentro de ambulâncias, os partos de portugueses tidos em Espanha, os doente…

MUDAR A ESSÊNCIA OU A APARÊNCIA?

«Pelo meu lado, vejo pouca glória num império que governa as ondas mas é incapaz de limpar os seus esgotos.» A frase é de Churchill e refere-se aos americanos, num discurso célebre em Dezembro de 1901. Cai como uma luva no discurso do estado da nação proferido há dias por Bush, mas não são essas latitudes que interessam. As remodelações têm sempre esta questão: muda-se a essência ou a aparência?
O que esta remodelação deveria significar, seria a tentativa de renovar a relação de cada cidadão com o Estado. Há uma quebra de confiança brutal em que o Estado se tornou persecutório, não fiável, vigilante. Da administração fiscal devorante ao fecho de urgências, vários pilares e mesmo a arquitectura de um estado social e assente em conquistas do socialismo ficou tremida. Ninguém hoje dirá que confia no Estado; mas dirá que o teme. Voltamos aos índices de confiança na coisa pública e na sua gestão mais próximos de Luís XIV; e em que os níveis de confiança teriam sem dúvida apenas justificação…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS, IV

Anton Bruckner (1824-1896)

A primeira vez que, adulto e consciente (ao que saiba) ouvi uma sinfonia de Bruckner pela primeira vez, deverei ter tido qualquer coisa semelhante a um enfarte. O meu coração disparava em luzes de compreensões sucessivas, enquanto um mar imparável rasgava-me o peito em choques sucessivos.
Não sei é possível subir com música. Acredito que quando morrer Beethoven, Brucker, Mahler, Brahms, Mozart, Bach, mas também Ella, Sarah Vaughan, Billie, John Coltrane, me receberão na música imparável que é espaço e tempo. Até lá sei que alguma coisa próxima de subir eu fui com Bruckner.

O meu pai dizia-me aos meus dezoito anos: «abóbadas de som, abóbadas de som». Agora não é a imagem da catedral que me surge, eu que gosto de ver Deus em espaços onde não está, ou onde é mínimo e pequeno como se mostra. Mas estas clareiras levantadas, espaços mergulhados em luz cortante, sucessiva, de pulsos levantados perguntando o fim e o início de todas as coisas, que falam mais alto que os…

OUTROS SOLDADOS

A «Economist» faz do assunto a sua capa do número da semana passada: «Invasion of the sovereign-wealth funds».
A questão é economiquesa mas não deixa de ser interessante: entre outros assuntos, refere a revista que os bancos e outras entidades financeiras americanas estão a ser compradas por empresas na Ásia.
À ideia surge-me automaticamente a imagem do Império Romano, cujas fileiras de soldados são cheias por antigos “bárbaros”, cuja fidelidade à romanidade e ao Imperador é circunstancial. Alguns historiadores apontam mesmo que a sua fidelidade se devia apenas ao seu chefe: donde as inúmeras revoltas onde vários imperadores conviviam, aclamados pelos seus soldados.
Na Roma actual, os EUA, vão tendo as suas fileiras também cheias e ocupadas por soldados de outras proveniências: o tecido económico americano vai pertencendo a outros.
A adensar a tantas marcas de fim que o império já tem, esta. A crise financeira desta semana vai tirando o tapete dos pés e a mostrar que o chão não é o que pe…

O PAPA NEGRO

Os Jesuítas elegeram ontem o seu Superior Geral. A questão é mais central para a nossa vida de todos os dias do que possamos pensar. Desde a péssima campanha Pombalina (que faz lembrar os truques usados nas campanhas presidenciais americanas) para sujar a imagem, afastar e acabar com os Jesuítas (fundamentada, porém, em alguma fuga à letra original que a ordem enfrentava nessa época), que os Jesuítas enfrentam uma revigorante e corajosa época, tentando procurar o seu espírito inicial e ligá-lo com o que o tempo de hoje lhes pede. Talvez por isso a “promoção da justiça”, e o apoio aos refugiados tenham gerado algumas das obras de assistência mais importantes do final do século, como o Jesuit Refugee Service (JRS) que, entre tantos campos, começou a construir campos de refugiados na Albânia ainda nem tinha rebentado a Guerra na ex-Jugoslávia.
E a questão é ainda mais central porque os Jesuítas são ao momento guardiães e representantes de uma teologia humanamente positiva, ou diria, de um…

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS, III

O DESACORRENTAR DOS ABISMOS: Wilhelm Furtwängler


Devo a Wilhelm Furtwängler muitas coisas.
É estranha a gratidão que temos a uma pessoa que só conhecemos morta, mas na sua maior vida: no que a caracterizava, no que foi a procura de transcender o seu tempo, o seu corpo, a sua própria vida. Mas é uma gratidão múltipla, total: e a maior e mais clara das dívidas é ter-me ajudado a habitar os abismos.
Ele acendia a partitura, guiava-me por lugares onde o ambiente e o discurso eram sombras. Deixava as minhas sombras falarem, moverem-se com a música: e conseguia ver-me, ouvir-me nesse espelho de mares interiores e acesos.
Mesmo a um mero passeante de música clássica, a audição de uma peça interpretada por Furtwängler não o deixará indiferente; ele pretendia, conscientemente Nietzschiano, que o sofrimento é o único lugar onde o homem aprende consigo: e procurava, nas suas interpretações, que esse choque vital levasse o homem a cair dentro de si mesmo e encontrasse o seu próprio caminho. «A suprem…