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«Same people, different books»


A frase é de um velho inspector da CIA, que ocupa a cena nos dois últimos episódios da season II de The Closer. The Closer é das melhores séries actuais, com enredos conseguidíssimos, reveladores da situação e realidade sócio-cultural de Los Angeles, com personagens coladas à vida, sem sofisticações, e com a crueza e a burocracia de qualquer esquadra ocidental. The Closer e a sua protagonista, Brenda Lee Johnson (Kyra Sedwick) merecem um outro post, mas agora a frase. O inspector que a proferiu contava a Brenda que durante cinquenta anos de carreira ouvira generais nazis a recitarem “Mein Kampf” enquanto atiravam judeus para câmaras de gás; tiros na nuca enquanto KGBs sussurravam Marx e Engels; e agora loucos a assassinarem inocentes adulterando Maomé. As mesmas pessoas, livros diferentes.
Os livros que estruturam a civilização ocidental vieram do Oriente. O Antigo Testamento, no seu encruzilhar emaranhado de mitos sumérios, babilónicos, egípcios reescritos e revistos, na própria natureza e história de Israel, ponte entre ocidente e oriente; o Novo, uma história de um novo Israel entre romanos e falsas concepções de poder, e o fecho salvífico do primeiro. E o Corão, onde tanto da nossa civilização, sem o querer saber agora, bebe.
O nosso Ocidente explica-se e funda-se nesse Oriente de onde retirámos as nossas raízes. Todas elas. O nosso voltar de costas ao Islão, que ainda é um resquício europacêntrico, pós-colonial, como base da nossa cultura, está em toda a parte. Está no facto simples de só tão recentemente começarmos a estudar convenientemente a presença islâmica em Portugal; está no facto de não considerarmos como “literatura portuguesa” os poemas dos poetas islâmicos dos séculos VIII-XII, entre os quais se contam dos maiores do Islão.
Está no facto de não compreendermos que na reacção e atitude de um Islão furioso com o Ocidente, deste Islão extremista e cego como (também, diferentemente, mas também) fomos há mil anos extremistas e cegos cruzados, está antes de mais a nossa incompreensão. O nosso fechamento, o nosso não ver no nosso Ocidente o Oriente donde vimos. Muito do estado actual do mundo se deve a isso. Foi mais longe que a nossa cegueira, mas partiu muito dela.
E pessoas e livros vão suceder-se, até que as raízes gritem.

Comentários

Já vi alguns episódios de The Closer e fiquei muito bem impressionado. E este texto só me despertou ainda mais a curiosidade em acompanhá-la.
RS disse…
Meu caro Pedro,
Pequeno mas notável texto sobre essa difícil relação de ódio/fascínio que subsiste. Não diria coisa diferente.

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