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Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, II


Alguns sectores “conservadores” (poderia chamar-lhes bárbaros, mas fiquemos pelas aspas) nos Estados Unidos e um pouco por aí, assentam toda a simbólica da criança-Deus como uma mensagem divina anti-aborto. Esta linha de pensamento parece-me que periga muito a consideração religiosa do Natal. A época, devorada pelo comércio como a sua época mais fiável e produtiva (como já nem os saldos são), afasta-se do seu significado não apenas por esta devoração: mas porque este tipo de argumentação cola-se à simbólica. E acaba por colonizá-la.
Qualquer civilização que não se encontre na sua simbólica (seja ela qual fôr) está decadente. O Ocidente, assente no cristianismo como raiz, não trabalha simbolicamente com liberdade a sua matriz identitária. Não entendemos que os símbolos do cristianismo são para ser revisitados, perguntados, multifigurados. Qualquer revisão, qualquer revisitação é mal vista. Separámos Igreja de progresso científico há centenas de anos, mas ainda não temos liberdade criativa sobre o nosso simbólico.
Por isso continuamos a procurar outros símbolos sobre os quais construir.
Um dos aspectos que poderia contribuir para o trabalho mais livre e criativo sobre as raizes civilizacionais do Cristianismo seria termos eficazes, laicos, independentes estudiosos de estudos bíblicos, intérpretes históricos e literários da Bíblia. Deixamos a interpretação ainda nas mãos dos eclesiásticos, quando esse texto mais nos pertence, a cada um como ocidental, do que a Odisseia ou os cantares provençais.
O símbolo aparentemente pobríssimo de uma criança num estábulo não deixa de me dizer sempre isto: o que é nascer contra o poder, contra as expectativas, contra a ordem? Contra a colonização de povos e símbolos?, nascendo envolto em palhas e numa continuidade de promessas de milhares de anos?
Para mim, é muitas coisas: mas é começar a retrabalhar a tradição. Cristo nasceu contra a tradição e as expectativas. A própria maneira de Deus de querer nascer mínimo e escondido, como estava anunciado no Antigo Testamento, mas inesperadamente contra todas as ideias de grandeza, comprova-o.
É preciso reinterpretá-lo.

Comentários

F. disse…
A questão é saber se há laicos interessados em fazer estudos bíblicos e se os próprios eclesiásticos vêem isso com bons olhos. (Os tempos têm mudado, mas algumas vontades permanecem...) A Bíblia é de facto a base da doutrina e o livro primeiro do Cristianismo. No entanto, (alguma) expriência minha diz-me que tentar estudá-la e vê-la com olhos exteriores - fonte riquíssima de referência para outras artes/obras - pode ser encarado como...não profanação, mas algo que não compete a quem "está de fora"... E nisto também pesa a Igreja enquanto Instituição. Mas isso... é tema para outras "conversas" ou posts.
Gostei do post.
Coincidência: antes de vi aqui, tinha acabado de postar no meu blog sobre um livro que destrona todos os alicerces do Cristianismo (e não só). Se quiserem espreitar...
Abraço,
O Homem que Sabia Demasiado
João Ventura disse…
Leio as suas «perguntas» e, eu que talvez seja menos católico de que você, apetece-me convidá-lo a encontrar respostas para as «minhas» que deixei em post recente. Escrevo aí sobre a utopia de algum dia com fluido abstracto e impossível substancia, reencontrarmos um Deus ou um «tecido novo» que com a luz de outra vida ocupem o mundo. Não sei se será outro Natal ou o mesmo reinterpretado. Sei que gostaria de mergulhar nesse fluído novo.

Entretanto vou passando por aqui.

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