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Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, I

não tenho o hábito de assinar nada ou defender nada do ponto de vista do católico que sou. porque creio que a minha fé é uma relação pessoal que deve, sem ser expressa por palavras, alterar em actos a minha vida e a dos outros. o desafio de o conseguir ou não, é comigo. as declarações (as anunciações) são pessoais, não impositivas: é um dos erros frequentes que séculos de evangelização fizeram.
mas chegando ao Natal, ao tema que mais move carteiras no Ocidente sob um pretexto religioso, e que centraliza ambientes, atitudes e expectativas, sempre tive uma curiosidade inquieta, perguntada em mim muitas vezes, sobre o sentido de tudo isto. pergunto-me muitas vezes o que acaba por ser o Natal.
encontro-me muito mais na ressurreição: na certeza de que um incómodo condenado à morte por oligarcas judeus (mas com a máfia italiana imperial a fazer o trabalho) transcendeu todos os dias e actos da sua vida e venceu a morte. essa é a minha esperança: que tudo passe à vida da eternidade, cada segundo de dias e actos de uma vida inteira. que tudo ganhe o sentido do infinito dentro de uma vida limitada, cheia de falhas e frágil.
é por aqui que começo: não vejo na correria comercial do Natal só um escândalo de gastos. acredito numa celebração humana onde cada um se lembra de outros, e procura outros para a construção de uma noite e de um dia comum. que isso se faça com excesso e estrépito, é próprio dos humanos e do capitalismo devorante em que vivemos.
mas mais que isto: acredito que o Deus, entre todos os deuses que os humanos fizeram ou subiram, quis tornar-se pessoal. quis aproximar-se de um modo que a sua natureza e a do Homem não fossem mais separadas. não lhe bastou um livro, uma aparição, uma imagem. para gravar a sua relação comigo, abandonou o seu estatuto de distância e veneração, e fez-se nascer. precisou de um segredo de uma adolescente, precisou da forma mais agressiva com que um homem pode fazer sonhar e deixar uma rapariga de dezasseis anos, a mais velha história do mundo: com promessas e abandonos. nesse gesto recuperou todas as mulheres, passadas, presentes e futuras, traídas por sonhos, apedrejadas por se terem entregue ao amor. nada foi “ex machina”, invenção: Deus quis nascer como o homem nasce. quis fazer-se igual, para dizer «eu sou igual a ti, nasci de todas as mesmas formas como tu nasceste»
a própria figura da fragilidade, nascida em Belém por uma circunstância burocrática, faz-se nascer num canto do mundo, filho de um carpinteiro que aceita o pecadilho ou o mistério pesado de uma rapariga, e de alguém que aceita ter um filho apenas para o homem ter Deus.
O Natal não deixa nunca de me falar da criatividade de Deus: quis deixar de ser narrador e passar a ser personagem, para cada homem narrar a sua história consigo. procurou-se todo para criar uma forma de contar-se, de exprimir-se todo no que a sua natureza é (no que a sua própria história, no que a própria autobiografia de Deus é): ser do Homem.
é isso que vejo em cada pouco (porque há cada vez menos) presépios: um Deus que quis ser eu.
e por isso em cada Natal sinto que a minha própria liberdade, a minha própria identidade, me foi devolvida.

Comentários

Helena disse…
Só tu para deixares as lágrimas à beira dos meus olhos. Eu continuo a adorar o Natal.
alice disse…
bom dia. no título, falta um "a" em "uma época". parabéns pelo blog.
Pedro Sena-Lino disse…
agradeço a ambas a correcção e a leitura

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